BRB registrou no BC dívidas quitadas ou inexistentes de clientes do Banco Master e Will Bank, gerando negativação e aumento de reclamações em 326%

Clientes relatam que contratos pagos ou nunca contraídos aparecem como ativos no SCR, BRB diz que deixou de receber informações do liquidante e promete correção em curto prazo

Clientes do Will Bank e do Banco Master passaram a encontrar registros de dívidas como ativos ou em atraso no Sistema de Informações de Créditos, o SCR, mesmo quando afirmam ter quitado os contratos ou nunca tê-los contraído.

Os consumidores notaram o problema ao consultar o Registrato, ferramenta do Banco Central que reúne dados compartilhados por instituições financeiras, e viram débitos em nome do Banco de Brasília, o BRB, embora muitos nunca tenham mantido conta no banco.

As informações e relatos foram reunidos por reportagem, conforme informação divulgada pelo g1

Como os registros apareceram e o que o BRB diz

Clientes que procuraram seus relatórios no Registrato encontraram contratos ativos ou em atraso atribuídos ao BRB. Em alguns casos, tratava-se de dívidas que já tinham sido quitadas junto ao Will Bank ou ao Banco Master, e em outros, de débitos que os clientes dizem nunca ter tido.

O BRB explicou que, após a liquidação do Will Bank, deixou de receber do liquidante as informações necessárias sobre o repasse e a quitação das operações de crédito cedidas. O banco informou que, pelas regras contratuais, a instituição que originou os créditos deve acompanhar os pagamentos e, na sequência, enviar os dados e os valores correspondentes ao BRB.

O banco informou ainda que, “após a liquidação, esse fluxo não foi retomado ainda pelo liquidante, de modo que o BRB ainda não dispõe de informações suficientes para a baixa das operações. Por essa razão, alguns contratos apareceram como ativos ou inadimplentes no Sistema de Informações de Créditos (SCR), mesmo já tendo sido pagos no banco de origem”.

Responsabilidade e riscos legais

Especialistas ouvidos na apuração destacam que a cessão de créditos é prática comum, porém exige cuidados e obrigações legais. Pedro Ramunno, professor de direito empresarial, afirma que, pela legislação, a transferência de créditos exige que o consumidor seja notificado, para que saiba a quem deve pagar.

Advogados apontam que o banco comprador precisa validar os dados antes de enviá-los ao Banco Central e deve classificar os novos clientes em suas reservas. Gustavo Kloh, professor da FGV Direito do Rio de Janeiro, ressaltou que o BRB não pode se eximir da responsabilidade, e que, “o BRB não pode alegar que um terceiro seja responsável pelo registro de dívidas indevidas. O banco precisa fornecer informações corretas ao consumidor e não pode registrar uma situação de crédito equivocada”.

Impactos práticos e números das reclamações

O registro de dívidas indevidas tem causado prejuízos concretos. Um cliente relatou ter tido um financiamento imobiliário negado por causa de uma dívida registrada como vencida, no valor de R$ 10 mil, que ele diz ter quitado no banco de origem.

O site Reclame Aqui registra ao menos uma centena de relatos semelhantes apenas em janeiro deste ano, enquanto outras 324 reclamações foram feitas entre agosto e dezembro de 2025. No mesmo período de 2024, houve 76 registros sobre o tema, um aumento de 326%.

Consumidores afetados relatam valores registrados como débito que variam, em um dos relatos o cliente encontrou uma dívida em atraso no valor de R$ 19.600,07 atribuída ao BRB, sem reconhecê-la. Em outro caso, um consumidor que havia fechado acordo com o Will Bank no fim de dezembro viu o débito vencido registrado em nome do BRB.

O que o consumidor deve fazer e próximos passos

Especialistas recomendam que o consumidor entre em contato com a instituição e solicite, por escrito, o contrato, o valor atualizado, quem está cobrando e qual banco originou a dívida. Se não houver contrato, trata-se de cobrança indevida, e o cliente deve formalizar a reclamação, gerar um protocolo e exigir a interrupção da cobrança.

Se a situação não for resolvida, a orientação é registrar reclamações em órgãos como Procon e no portal Consumidor.gov, e, se necessário, avaliar medidas judiciais pelo Juizado Especial ou pela Justiça comum. Bruno Balduccini destaca que o banco comprador deve atualizar e classificar imediatamente os novos clientes e responder por correções.

Sobre as providências, o BRB afirmou que realizou conciliações internas e encaminhou comunicados ao liquidante solicitando a retomada do processo, e que segue cobrando os responsáveis pelo envio das informações para que a normalização ocorra no menor prazo possível.

O caso envolve também negociações e compras de carteiras entre o BRB e o Banco Master, além de ativos originados pelo Will Bank, que estão sob apuração pela Polícia Federal e foram objeto de decisão do Banco Central que vetou a compra integral do Master pelo BRB em setembro, em uma operação anunciada em 2025.

Consumidores que identificarem registros indevidos devem reunir provas, formalizar reclamações e acompanhar as ações do banco comprador e do liquidante até a correção definitiva dos dados.