Briga entre Trump e Jerome Powell: origem, investigação do DOJ e riscos à independência do Fed que ameaçam juros, dólar e a economia global

Como a briga entre Trump e Jerome Powell escalou até uma investigação do Departamento de Justiça, e por que a independência do Fed está em jogo

A disputa entre o presidente dos EUA, Donald Trump, e o chefe do Federal Reserve, Jerome Powell, ganhou novo capítulo, com Powell confirmando que virou alvo de uma investigação do Departamento de Justiça.

O embate reúne críticas públicas sobre a política de juros, tentativas de troca na liderança do Fed e agora uma apuração criminal sobre o depoimento de Powell e a reforma da sede do banco central.

Os desenvolvimentos aumentam o temor de que haja pressão política sobre decisões monetárias, um tema com impacto direto sobre taxas, câmbio e confiança global, conforme informação divulgada pelo g1

Origem do confronto entre Trump e Jerome Powell

A tensão começou quando Trump passou a criticar publicamente as decisões do Fed, pedindo cortes de juros e acusando a autoridade monetária de prejudicar a economia. Em março, após o Fed manter taxas estáveis, Trump disse que o banco estaria "muito melhor se cortasse as taxas".

Ao longo de 2025, Trump intensificou as críticas, chamando Powell de "estúpido" e "cabeça oca" e afirmando que a política monetária estaria "prejudicando as pessoas". Além disso, o governo sondou nomes para substituir Powell, ampliando a pressão política sobre o presidente do Fed.

O confronto também se manifestou em tentativas de destituir conselheiros do Fed e em sinais públicos de que a Casa Branca buscava um substituto alinhado a suas demandas por juros mais baixos.

Por que Powell é investigado e o que está em jogo

A investigação do DOJ tem origem no depoimento de Powell ao Comitê Bancário do Senado, em junho, sobre a reforma da sede do Fed, um projeto de cerca de US$ 2,5 bilhões, equivalente a R$ 15,6 bilhões, segundo as informações divulgadas.

Powell minimizou alegações sobre itens de luxo no projeto, negou aquisição de bens pessoais e disse que a reforma, autofinanciada pelo Fed, visa modernização e redução de custos no longo prazo. Um mês depois, a congressista Anna Paulina Luna encaminhou ao DOJ uma acusação de perjúrio contra Powell.

O Departamento de Justiça raramente comenta investigações, mas, segundo comunicado citado pela imprensa, "a Procuradoria-Geral instruiu os procuradores federais a priorizar a investigação de qualquer abuso do dinheiro dos contribuintes."

Powell classificou a apuração como "ação sem precedentes" e afirmou que "esta nova ameaça não tem que ver com meu depoimento em junho passado ou com a reforma dos prédios do Federal Reserve, esses são pretextos".

Ele também disse, em mensagem pública, "Trata-se de saber se o Fed será capaz de continuar a definir as taxas de juros com base em evidências e condições econômicas ou se, em vez disso, a política monetária será dirigida por pressão política ou intimidação."

Riscos econômicos e efeitos no mercado

A disputa e a investigação já têm reflexo nos mercados, com queda do dólar e alta do ouro. A cotação do metal chegou a um recorde de 4.600,33 dólares por onça, segundo as informações veiculadas.

A independência do Fed é vista como essencial para manter a inflação controlada, garantir estabilidade financeira e preservar a confiança em políticas de longo prazo. Se decisões monetárias passarem a ser influenciadas por interesses políticos de curto prazo, há risco de maior volatilidade, aumento da inflação e perda de credibilidade dos Estados Unidos junto a investidores globais.

Economistas e líderes de outros bancos centrais reagiram ao caso. Um grupo de presidentes de bancos centrais declarou apoio a Powell, afirmando que "a independência dos bancos centrais é um pilar fundamental da estabilidade de preços, financeira e econômica".

O que pode acontecer a seguir

A investigação criminal pode durar meses, e o DOJ costuma não comentar passos da apuração. A Casa Branca negou envolvimento direto de Trump na abertura do inquérito, e o próprio presidente negou conhecimento ou participação, apesar de reforçar suas críticas a Powell, afirmando que "certamente não é muito bom no Fed e não é muito bom em construir prédios".

Se a investigação avançar para acusações formais, o caso pode provocar batalhas judiciais e políticas de alto impacto, inclusive com audiências no Congresso e apelos à Suprema Corte, caso medidas disciplinares ou tentativas de remoção sejam iniciadas.

Se a pressão política sobre o Fed aumentar, investidores podem recalibrar expectativas sobre juros, crédito e riscos soberanos dos EUA, com efeitos em fluxos de capital e custos de financiamento global.

Em meio ao cenário, a principal incógnita é se a disputa vai se limitar ao terreno político e midiático, ou se evoluirá para um choque institucional que realmente comprometa a capacidade do Fed de decidir com base em dados e condições econômicas, e não por intimidação política.