A espinha dorsal da internet global está em perigo, com crescentes suspeitas de sabotagem em cabos submarinos que conectam o mundo.
A comunicação global, o fluxo financeiro e informações vitais para governos dependem de uma vasta rede de cabos submarinos que se estendem pelo fundo dos oceanos. Essa infraestrutura, essencial para a globalização, nunca esteve tão exposta a riscos, especialmente em um cenário de crescentes tensões geopolíticas.
Desde 2022, incidentes no Mar Báltico levantaram sérias preocupações sobre a segurança desses cabos. A região tem registrado o rompimento de ao menos dez cabos, com suspeitas recaindo sobre a Rússia e, mais recentemente, sobre a China. Esses eventos chamaram a atenção para a vulnerabilidade de uma rede que, se comprometida, pode ter consequências devastadoras.
Governos em todo o mundo, especialmente na Ásia-Pacífico, temem que conflitos em potencial, particularmente com a China, transformem esses cabos em alvos estratégicos. A capacidade de países como a China de realizar ataques precisos a grandes profundidades é um fator de preocupação crescente, como apontam relatórios de centros de estudos estratégicos. Conforme informação divulgada pela Deutsche Welle, a interrupção desses cabos pode isolar regiões inteiras, afetando severamente a comunicação, a economia, a educação e a infraestrutura crítica de nações inteiras.
Ameaças Reais no Mar Báltico e no Pacífico
No Mar Báltico, a situação é particularmente alarmante. Um estudo da Universidade de Washington indicou que aproximadamente dez cabos foram rompidos desde 2022, com sete incidentes ocorrendo entre novembro de 2024 e janeiro de 2025. Embora a Rússia tenha sido frequentemente citada como possível responsável, com evidências como marcas de âncoras e movimentos suspeitos de navios, não há provas conclusivas de sabotagem intencional, pois acidentes ou negligência também são possibilidades.
A China também emergiu como um ponto de preocupação. Em novembro de 2024, a Suécia solicitou a colaboração chinesa em uma investigação sobre um rompimento de cabo na região. Essas suspeitas ganham força com relatórios que indicam o desenvolvimento de tecnologia chinesa capaz de cortar cabos a profundidades significativas, conforme mencionado pela Comissão de Revisão Econômica e de Segurança EUA-China (USCC).
Consequências de um ‘Apagão’ Digital
A interrupção de um cabo submarino principal teria um impacto imediato e drástico. Kenny Huang, presidente do Asia Pacific Information Center, explica que a região afetada se tornaria um “vácuo de informações”, sem acesso à internet ou redes internas. Para Taiwan, por exemplo, o rompimento de um cabo submarino significaria o isolamento completo do mundo exterior, com consequências graves para a comunicação, economia, forças armadas e outros setores vitais.
Além da destruição física, os cabos submarinos também estão sujeitos à interceptação, permitindo que nações rivais obtenham informações ou vantagens estratégicas. A revista Global Defense Insight destaca a necessidade de aprimorar a segurança cibernética e a cooperação internacional para proteger essas infraestruturas críticas. O especialista Johannes Peters, da Universidade de Kiel, ressalta que a sabotagem não exige um esforço tecnológico grandioso, bastando o lançamento de uma âncora no fundo do mar para romper os cabos.
Medidas de Proteção e o Futuro da Conectividade
Para mitigar esses riscos, são necessárias ações em diversas frentes. A proteção jurídica dos cabos precisa ser fortalecida, com leis que prevejam penas mais severas para o corte intencional, segundo Kenny Huang. Do ponto de vista técnico, planos de backup robustos para redirecionar o tráfego de dados são essenciais, embora não sejam infalíveis em caso de ataques coordenados.
Países como Japão e seus aliados já estão adotando medidas preventivas, como excluir empresas chinesas de projetos de cabos com participação americana e instalar cabos a distâncias maiores. A ideia de designar áreas de navegação restrita sobre os cabos e a implementação de tecnologia de sensores para proteção são outras estratégias em discussão. O Mar Báltico, nesse contexto, tem servido como um “laboratório de testes” para novas formas de guerra híbrida marítima, observando-se como o Ocidente reage a esses incidentes e quais lições podem ser extraídas para a segurança global da infraestrutura digital.