Influenciadores relatam que a agência assumiu exclusividade nas negociações, impôs isolamento e deixou de repassar valores, levando o casal a cruzar comprovantes com marcas
Dois criadores que assinam o perfil 2depais relatam que perceberam inconsistências nos repasses e, ao checar pagamentos junto a patrocinadores, descobriram que as campanhas haviam sido quitadas, mas os valores não chegaram a eles.
Segundo o casal, o contrato dava à agência controle total sobre negociações, assinaturas e recebimentos, enquanto orientações para evitar contatos externos impediam checagens independentes.
Os influenciadores reuniram documentos, acionaram advogado e levaram o caso ao Ministério Público, conforme informação divulgada pelo g1
Como a diferença nos pagamentos foi identificada
O casal conta que os atrasos eram apresentados como pontuais, com justificativas sobre mercado e burocracia. Sem acesso aos contratos, eles começaram a anotar campanhas em uma planilha própria para acompanhar prazos e valores.
Ao entrar em contato direto com marcas, as respostas se repetiram, os pagamentos já constavam como efetuados havia meses, e então os influenciadores perceberam o que chamam de rombo de R$ 500 mil.
Um dos momentos decisivos, segundo eles, veio quando receberam o primeiro comprovante de pagamento de uma campanha, mostrando que a marca havia quitado a fatura cinco ou seis meses antes, exatamente o período que a agência dizia estar em aberto.
Cláusulas contratuais e sinais de alerta
O contrato que o casal assinou dava à agência exclusividade para fechar campanhas, emitir notas fiscais, receber pagamentos e repassar com comissão de 30%, enquanto os criadores ficavam com 70%.
Especialistas ouvidos destacam que cláusulas de transparência financeira são essenciais. A advogada Mayra Mega Itaborahy recomenda limitar o poder da agência, exigir autorização prévia e por escrito para acordos, e garantir acesso a contratos, valores, prazos e comprovantes.
Itaborahy alerta que a ausência de relatórios, a resistência em fornecer documentos e exclusividade excessiva são sinais de alerta, e que atraso no repasse pode configurar inadimplência ou crime, inclusive apropriação indébita (art. 168 do Código Penal).
Medidas legais e decisão judicial
Com a documentação reunida, o advogado dos influenciadores levou o caso ao Ministério Público, apontando possibilidade de apropriação indébita majorada e pedindo bloqueio de bens e prestação de contas.
Em decisão do juiz Caio Hunnicutt Fleury Moraes, o pedido de depósito judicial e bloqueio de valores foi negado por falta de provas suficientes, porém o magistrado determinou que uma patrocinadora com contrato de R$ 42 mil pague diretamente a parte dos influenciadores.
O g1 tentou contato com a Hello Group para comentar as acusações, sem retorno até a última atualização, segundo a reportagem.
Impacto pessoal e como evitar problemas similares
Os criadores relataram consequências financeiras e pessoais, como a necessidade de emitir notas fiscais sem receber os valores, parcelamento de mais de R$ 40 mil em impostos, e problemas de saúde associados ao estresse.
Para evitar situações parecidas, especialistas indicam contratos com cláusulas claras sobre prazos, forma de pagamento, multas e rescisão, mecanismos de repasse direto ou contas de garantia, e a manutenção de registros de contratos e comprovantes.
Além de medidas contratuais, os influenciadores e advogados aconselham buscar documentação das marcas, preservar comunicações por escrito e, na dúvida, consultar um advogado antes de assinar exclusividades que limitem o acesso às informações financeiras.