quinta-feira, junho 4, 2026

Casal de influenciadores revela como descobriu rombo de R$ 500 mil em acordo com agência, isolamento e falta de transparência, e orientações para evitar fraudes

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Casal do perfil 2depais diz que contrato dava controle total à Hello Group, atrasos e ‘terrorismo psicológico’ ocultaram repasses e geraram prejuízo de mais de R$ 500 mil

Gustavo Catunda e Robert Rosselló, do perfil 2depais, contam que só descobriram um saldo negativo superior a R$ 500 mil depois de confrontar comprovantes das marcas com os valores que a agência dizia não ter recebido.

Segundo o casal, o contrato dava à agência controle total sobre negociações, repasses e comunicação, e orientava os influenciadores a evitar contato direto com marcas, colegas ou outras agências.

As informações narradas pelos criadores a partir de documentos e conversas foram relatadas ao g1, conforme informação divulgada pelo g1.

Como o rombo foi descoberto

O acordo previa que 70% do valor das campanhas fossem para os influenciadores, enquanto a agência ficaria com 30% de comissão. O casal, que soma mais de 2,5 milhões de seguidores no perfil 2depais, passou a notar atrasos frequentes nos repasses, sem acesso a contratos ou comprovações.

As orientações da agência incluíam, segundo os influenciadores, recomendações para não falar com as marcas e não revelar valores, sempre justificadas como um cuidado com a imagem. Gustavo cita a orientação textual recebida, “nunca conte qual é o seu trabalho, quanto você está ganhando, nunca fale com as pessoas, porque isso vai te derrubar”.

Ao contatar algumas marcas diretamente, o casal recebeu comprovantes que mostravam pagamentos feitos meses antes, em campanhas que a agência dizia ainda não ter recebido, e então concluiu que havia retenção indevida dos repasses.

Consequências financeiras e pessoais

Os influenciadores relatam que o problema se agravou no fim de 2024, com campanhas fechadas em novembro sem repasse no início de 2025. Sem receber os valores, precisaram emitir notas fiscais sem o dinheiro correspondente e acabaram devendo impostos, parcelando mais de R$ 40 mil.

Robert diz ter desenvolvido uma doença autoimune ligada ao estresse e descreve um impacto emocional, com sensação de insegurança e desconfiança. O casal afirma que, após divulgar o caso, outros criadores relataram problemas parecidos com a mesma agência.

Resposta judicial e da agência

Com documentação em mãos, Gustavo e Robert procuraram um advogado e levaram o caso ao Ministério Público, apontando possibilidade de apropriação indébita majorada. Entre as medidas solicitadas estavam o bloqueio de bens da agência e a prestação de contas.

Em decisão desta segunda-feira, o juiz Caio Hunnicutt Fleury Moraes considerou não haver provas suficientes para decretar depósito judicial ou bloqueio de valores da empresa, mas determinou que uma patrocinadora com contrato de R$ 42 mil pague diretamente a parte dos influenciadores, conforme relato ao g1. A reportagem procurou os responsáveis pela agência, sem retorno até a última atualização.

Cuidados contratuais e prevenção

Especialistas ouvidos pela reportagem ressaltam a importância de cláusulas claras sobre transparência financeira em contratos entre influenciadores e agências. A advogada Mayra Mega Itaborahy alerta para cláusulas que limitem excessivamente o poder da agência e para a necessidade de acesso a contratos, comprovantes e prestações de contas.

Itaborahy recomenda, entre outros pontos, limitar o poder da agência, exigir autorização prévia e por escrito para acordos e garantir que o criador tenha acesso aos contratos feitos em seu nome. Ela observa que atrasos no repasse configuram inadimplência e podem gerar juros e multa, e que, em casos graves, a situação pode configurar crime de apropriação indébita, art. 168 do Código Penal.

Modelos considerados mais seguros incluem repasses diretos aos criadores, pagamentos separados ou o uso de contas de garantia, e a manutenção rigorosa de contratos, comprovantes e registros escritos, pois “são provas essenciais em disputas”, conforme afirmou a advogada.

O caso do casal do 2depais mostra como exclusividade excessiva, falta de relatórios e resistência em fornecer documentos podem ser sinais de alerta, e reforça a necessidade de organizar documentos e definir prazos, forma de pagamento, multas e cláusulas de rescisão em contratos com agências.

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