Liquidação do Banco Master mostra lacunas na fiscalização de fundos, pressão sobre o Fundo Garantidor de Créditos e debate sobre ampliar poderes do Banco Central e da CVM
O fechamento do Banco Master transformou uma instituição de pequeno porte em um caso que colocou em xeque a capacidade de supervisão do sistema regulatório brasileiro.
A crise, deflagrada após operações da Polícia Federal que apontaram suspeitas de fraude na comercialização de fundos e supervalorização de ativos, levantou preocupação sobre a atuação da CVM, das auditorias e do próprio Fundo Garantidor de Créditos.
No foco das discussões estão a coordenação entre órgãos, o tamanho das equipes de fiscalização e a revisão de regras que permitem que instituições menores atuem com exigência regulatória reduzida.
conforme informação divulgada pelo g1
Por que o caso ganhou dimensão, mesmo com porte reduzido
O Banco Central liquida o Banco Master em novembro, ressaltando que o conglomerado detinha apenas 0,57% do ativo total do Sistema Financeiro Nacional, motivo pelo qual seu impacto sistêmico foi considerado limitado.
No entanto, investigações da Polícia Federal apontaram possíveis fraudes na emissão de títulos e operações com créditos “insubsistentes”, e o caso passou a envolver 1,6 milhão de investidores, segundo as apurações citadas pela autoridade monetária.
Segundo a apuração, a instituição teria inflado artificialmente seu patrimônio para simular liquidez, fazendo com que “a instituição não teria capacidade de pagar os ganhos prometidos a uma carteira de 1,6 milhão de investidores”.
Fragilidades na CVM, coordenação entre autorida des e pressão política
O episódio expôs a diferença de mandatos entre órgãos, com a CVM responsável pela regulação do mercado de capitais e o Banco Central pela higiene do sistema financeiro, o que exige coordenação, comunicação e capacidade técnica adequadas.
Especialistas apontam a precariedade de recursos da CVM, que, conforme reportagem citada, informou ao governo federal, em agosto de 2025, que precisaria ampliar em 544 o número de inspetores federais para fiscalizar os mais de 90 mil fundos e outros ativos que totalizam R$ 16,7 trilhões.
Em comparação, a agência americana equivalente, a Securities and Exchange Commission, tem cerca de 5 mil funcionários, o que ilustra a defasagem de capacidade de fiscalização.
Para o economista Pedro Paulo Silveira, “Como qualquer outro sistema bancário no mundo, o sistema brasileiro enfrenta um dilema entre liberalização e regulação. Apenas um sistema bancário ágil e flexível consegue oferecer crédito nas condições de que a economia precisa”, e o sucesso dessa flexibilidade depende da capacidade de controle dos órgãos.
Auditorias independentes e fundos de pensão, onde falharam os controles
O caso também colocou sob suspeita a atuação de auditorias independentes, que aprovaram balanços do Master sem identificar supostos valores bilionários em ativos inexistentes, segundo reportagem citada.
Na esfera pública, foi reaberta a discussão sobre responsabilização criminal de auditorias, tema que deve ser debatido na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado.
Além disso, fundos de pensão do setor público, os Regimes Próprios de Previdência Social, aparecem como credores relevantes, com 18 desses fundos tendo aplicado R$ 1,86 bilhão em ativos distribuídos pelo Master, conforme dados oficiais.
Esses fundos administram, juntos, R$ 365 bilhões, e a alocação em papéis de risco questionável apontou falhas de governança, processos de seleção e auditoria interna.
FGC, quem arca com a conta e propostas em discussão
O uso do Fundo Garantidor de Créditos para ressarcir investidores mostrou como o mecanismo tem sido interpretado pelo mercado, com corretores e instituições tratando a garantia como selo de segurança para produtos que podem ser de alto risco.
No caso Master, investimentos de até R$ 250 mil serão devolvidos pelo FGC, e a recomposição do fundo deverá levar a chamadas de capital entre bancos, com a necessidade de adiantamento estimada em ao menos R$ 50 bilhões por outros bancos, segundo especialistas consultados.
O mecanismo de contribuição atual do FGC calcula aportes proporcionalmente ao volume de depósitos cobertos, e há propostas para que a contribuição também reflita o risco individual das operações, para desincentivar a externalização de risco.
O Banco Central também determinou medidas operacionais, como a reserva de R$ 3 bilhões pelo BRB para manter operações em segurança, e, em 21 de janeiro, o BC liquidou a fintech Will Bank, braço digital ligado ao Master, ampliando a discussão sobre fiscalização de fintechs.
Especialistas e autoridades do Executivo e do Legislativo debatem agora mudanças estruturais, que vão da ampliação de quadros na CVM, à revisão das regras de governança dos fundos de pensão, passando por maior responsabilidade das auditorias e possíveis alterações no modelo de contribuição do FGC.
O desafio central permanece, conciliar a necessidade de um sistema financeiro ágil e competitivo, com a capacidade efetiva de fiscalização e proteção aos investidores, evitando que falhas em instituições de pequeno porte gerem custos para o conjunto do sistema.