Colapso do Banco Master expôs os limites do FGC, por que o fundo terá de pagar R$ 51 bilhões e como isso muda investimentos, bancos e crédito
Os limites do FGC ficaram em evidência após o colapso do grupo Master, com desembolsos já realizados, pressões para adiantar contribuições e propostas para dividir custos entre bancos
Três meses após a liquidação do Banco Master, investidores, especialistas e autoridades tentam medir o alcance do impacto sobre o Fundo Garantidor de Créditos, e sobre a confiança no mercado financeiro.
Para parte dos clientes, a garantia do FGC funcionou como seguro e permitiu o ressarcimento, enquanto para muitos outros a espera e as perdas temporais deixaram sequelas na percepção de risco.
O episódio também abriu debate sobre como financiar o fundo e quem deve pagar pela recomposição dos recursos, e sobre os limites do FGC como argumento de venda pelas instituições financeiras, conforme informação divulgada pelo g1.
O que aconteceu e números-chave
O colapso do Banco Master, do Will Bank e do Banco Pleno vai levar o FGC a desembolsar cerca de R$ 51 bilhões, e o fundo já informou ter desembolsado R$ 37,2 bilhões até o momento.
Somente no caso do Master, cerca de 800 mil investidores têm direito à garantia, e 653 mil credores do Master receberam os valores, o que representa 84% dos beneficiários.
Antes da crise, o FGC tinha mais de R$ 140 bilhões em caixa, e a necessidade de recompor quase um terço desses recursos colocou em discussão medidas extraordinárias de financiamento.
Como a garantia foi usada na distribuição de produtos
Especialistas ouvidos pelo g1 afirmam que o **FGC passou a ser usado como argumento de venda** por corretoras e bancos para atrair investidores com pouca experiência.
Segundo a economista Ione Amorim, do Idec, “O FGC foi apresentado como garantia absoluta para atrair investidores menos experientes, Todo investimento envolve risco, mesmo com a proteção do fundo, e isso, pelo visto, nem sempre foi explicado de forma clara pelas corretoras”.
Ofertas com rentabilidades elevadas, como CDBs pagando até 140% do CDI no Master, combinaram promessa de retorno e o selo de proteção, e isso reduziu o receio de investidores leigos.
Consequências práticas para investidores
Marina*, que aplicou R$ 10 mil em CDB do Banco Master e mora em Nova York, conseguiu reaver o montante rapidamente, e disse, “Quando vi o valor creditado, fiquei muito aliviada”.
Já Alexandre, que aplicou R$ 15 mil, relatou que “Demorou, mas deu certo. Depois que liberaram o pedido de ressarcimento, o dinheiro caiu na conta em quatro dias. Mas, desde a liquidação do banco, foram meses de espera”.
Para o advogado Roberto Panucci, especialista em direito bancário, “recuperar o dinheiro não significa que o investimento tenha sido vantajoso” , pois meses sem acesso aos recursos podem reduzir ganhos reais quando se considera inflação e custo de oportunidade.
Pressão para recompor o fundo e mudanças nas regras
O FGC discute medidas para levantar recursos, como antecipar contribuições que seriam pagas nos próximos anos, criar uma cobrança extra sem prazo definido, e negociar com o Banco Central o uso de parte do compulsório.
Atualmente, os bancos pagam uma taxa mensal de 0,01% sobre o saldo dos depósitos cobertos pelo fundo, e em agosto o Conselho Monetário Nacional elevou a cobrança para instituições mais expostas ao risco, a 0,02%, além de exigir maior parcela aplicada em títulos públicos.
O economista Armando Castelar, da FGV Ibre, defende que “A contribuição deveria refletir o risco da instituição“, para que bancos mais arriscados contribuam com valores maiores e os incentivos se tornem mais alinhados à solvência.
O advogado Adilson Bolico alerta para uma possível “quebra do dever fiduciário“, ao descrever que bancos e corretoras podem ter priorizado vendas agressivas em detrimento do interesse dos clientes.
Para Roberto Panucci, “Ao encarecer o uso da cobertura do FGC, o regulador reconhece que o modelo atual gera incentivos distorcidos. A reforma é, na prática, uma admissão de que a garantia estimula comportamentos de risco“.
Impactos para o sistema financeiro e para o consumidor
A recomposição do FGC tende a elevar custos para o setor, e esses custos podem ser repassados aos clientes por meio de tarifas maiores, juros mais altos em empréstimos e menor disponibilidade de crédito.
Com menos capital livre, bancos e fintechs podem “apertar os critérios” de concessão, segundo Ione Amorim, o que pode reduzir oferta e elevar o custo do crédito para famílias e empresas.
Além do impacto direto sobre os investidores que precisaram aguardar ressarcimento, o episódio do Master deixa um efeito colateral sobre a confiança, levando muitos a adotar posturas mais conservadoras e procurar mais informação antes de investir.
*Nome fictício para preservar identidade da fonte.