Colapso do Banco Master expôs os limites do FGC, R$51 bilhões a pagar, atraso nos ressarcimentos e mudança de regras que podem elevar custos e apertar crédito

Entenda como a garantia de até R$250 mil por CPF, os pagamentos já feitos e a necessidade de recompor quase um terço do caixa do FGC alteram a confiança de investidores e a operação dos bancos

O colapso do Banco Master e de instituições do mesmo grupo expôs as limitações do FGC como mecanismo de proteção para investidores, e gerou dúvidas sobre custos e responsabilidades no sistema financeiro.

Milhares de clientes aguardaram meses para reaver os recursos, enquanto o fundo teve de mobilizar bilhões para pagamentos que reduziram fortemente seu caixa.

Os números e as análises a seguir mostram por que a situação exige revisão do modelo de financiamento do FGC, e como isso pode afetar todas as etapas do mercado financeiro, conforme informação divulgada pelo g1.

O que o FGC cobre e onde estão os limites

O Fundo Garantidor de Créditos, FGC, garante a devolução de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ em cada grupo financeiro, e existe um limite total de R$ 1 milhão a cada quatro anos, somando o valor aplicado e os rendimentos até a data da liquidação.

Especialistas ouvidos afirmam que, apesar de funcionar como seguro, o FGC foi muitas vezes usado como argumento de venda por corretoras e bancos para reduzir a percepção de risco de CDBs e outros produtos de renda fixa.

A economista Ione Amorim, do Idec, alertou que, “o FGC foi apresentado como garantia absoluta para atrair investidores menos experientes. Todo investimento envolve risco, mesmo com a proteção do fundo, e isso, pelo visto, nem sempre foi explicado de forma clara pelas corretoras”, conforme informação divulgada pelo g1.

Pagamentos, números do caso Master e impacto imediato

Somando Banco Master, Will Bank e Banco Pleno, o FGC deverá pagar cerca de R$ 51 bilhões para ressarcir clientes afetados pelo grupo, segundo dados levantados pela reportagem.

O fundo informou que já desembolsou R$ 37,2 bilhões, e que 653 mil credores do Master receberam valores, o que representa 84% dos beneficiários identificados até o momento.

Além disso, cerca de 800 mil investidores têm direito à garantia somente em razão do Banco Master, o que evidencia a amplitude do caso e a pressão sobre os recursos do fundo.

Medidas para recompor o fundo e alterações na cobrança

Para reconstruir o caixa, o FGC avalia medidas que incluem antecipar contribuições previstas para os próximos anos, criar uma cobrança extra para associados e negociar o uso de parte do compulsório junto ao Banco Central.

O plano mencionado prevê adiantar o equivalente a 60 meses de contribuições ainda em 2026, além de mais 12 meses em 2027 e outros 12 meses em 2028, conforme informação divulgada pelo g1.

Antes do caso Master, as instituições pagavam uma taxa mensal de 0,01% sobre o saldo dos depósitos cobertos, e em agosto o Conselho Monetário Nacional já criou uma cobrança adicional, elevando a taxa para 0,02% para as instituições de maior risco, além de exigir que mantenham parcela maior aplicada em títulos públicos.

Para especialistas, a cobrança deveria refletir o risco da instituição, e não ser igual para todos. O advogado Roberto Panucci disse, “Ao encarecer o uso da cobertura do FGC, o regulador reconhece que o modelo atual gera incentivos distorcidos. A reforma é, na prática, uma admissão de que a garantia estimula comportamentos de risco”, conforme informação divulgada pelo g1.

Consequências para investidores, bancos e consumidores

Além das perdas e da espera por ressarcimento, que reduzem a rentabilidade real dos investimentos, há risco de que parte do custo de recomposição do fundo seja repassada à população por meio de tarifas mais altas, juros maiores e menor disponibilidade de crédito.

Casos individuais ilustram o impacto humano do processo, como o de Marina, que aplicou R$ 10 mil e afirmou que conseguiu reaver o montante em menos de 24 horas após a liberação, e o de Alexandre, que investiu R$ 15 mil e saiu, segundo ele, “Demorou, mas deu certo. Depois que liberaram o pedido de ressarcimento, o dinheiro caiu na conta em quatro dias. Mas, desde a liquidação do banco, foram meses de espera”, conforme informação divulgada pelo g1.

A expectativa de especialistas é que bancos passem a destinar mais recursos ao fundo e, como consequência, possam apertar critérios de concessão de crédito ou aumentar custos operacionais, afetando, direta ou indiretamente, consumidores e empresas.

O episódio do Banco Master é, portanto, um alerta para investidores e reguladores sobre os limites do FGC, a necessidade de comunicação mais clara sobre riscos, e a urgência de ajustes no modelo de financiamento para reduzir incentivos a comportamentos arriscados no sistema financeiro.