Intervenção dos EUA na Venezuela pode ampliar a oferta global de petróleo, forçar realinhamentos na América Latina e criar nova competição por investimentos na margem equatorial do Brasil
O avanço da administração do presidente Trump na Venezuela abre um cenário novo para o setor de energia na América Latina, com consequências diretas sobre oferta, preços e decisões de investimento.
Especialistas ouvidos por analistas do setor estimam que a retomada da produção venezuelana, hoje muito abaixo de seu potencial, poderá reduzir ainda mais o preço do barril e reorganizar parcerias entre empresas, governos e compradores, em especial a China.
Este texto resume os efeitos esperados na região, as pressões sobre a Petrobras e os possíveis vencedores e perdedores, conforme informação divulgada pelo g1.
Reservas, produção e peso estratégico do petróleo venezuelano
A Venezuela detém as maiores reservas mundiais de petróleo, com cerca de 17% do total, mesmo que a produção atual esteja muito abaixo do potencial do país.
Desde a estatização do setor e a saída de companhias americanas e britânicas na era chavista, a produção venezuelana caiu para cerca de 800 mil barris por dia, nível bem inferior a países como Arábia Saudita, Rússia e Estados Unidos.
Pressão sobre a Petrobras e a margem equatorial brasileira
Com o retorno de atores americanos à Venezuela, empresas de petróleo global podem reavaliar onde aplicar capital, criando competição por investimentos na margem equatorial brasileira.
Em 2025, após 12 anos, a Petrobras recebeu autorização para iniciar estudos de prospecção em um dos quase 300 blocos identificados na margem norte do Brasil, e essa janela pode atrair mais concorrentes internacionais.
Adriano Pires, sócio-fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura, destaca a mudança de prioridades do mercado, afirmando, “Você vai ter empresas de petróleo que vão começar a se questionar: coloco dinheiro na Venezuela ou coloco na margem equatorial? Está sendo criado um concorrente para esses investimentos”.
Impacto nos preços e na demanda global, e o papel da China
O provável aumento da oferta mundial com a reativação venezuelana deve contribuir para a queda dos preços do barril, hoje negociado em torno de US$ 60.
Embora a queda de preços reduza receitas por barril, ela também altera decisões de investimento e fluxos de caixa das petroleiras, além de mudar padrões de comércio internacional.
Atualmente, 80% do petróleo venezuelano vai para a China, muitas vezes a custos inferiores aos do mercado, o que torna Pequim um ator central no tabuleiro energético regional.
Adriano Pires observa a crescente ligação entre Brasil e China, lembrando, “Além disso, as empresas chinesas de petróleo que compraram campos aqui no Brasil já produzem 350 mil barris por dia, então o Brasil é cada vez mais um país hiperimportante para a China, no sentido de abastecimento de petróleo”.
Cenário político regional e implicações geopolíticas
Para especialistas, a ação dos EUA também tem um componente geopolítico, com objetivo de reduzir a influência chinesa sobre reservas estratégicas e reconfigurar alianças na região.
Sobre a estratégia americana, Pires afirma, “O que ele quer, na realidade, é ter um controle maior sobre as reservas de petróleo mundiais, para poder dar um xeque-mate na China, que hoje é a segunda maior consumidora de petróleo no mundo, e ao mesmo tempo criar uma espécie de mini-OPEP para ele”.
Na avaliação do analista, “No tabuleiro da geopolítica do petróleo, Trump passa a jogar com muito mais poder”, o que pode levar a decisões coordenadas sobre produção e preços internacionais.
Quem pode ganhar e perder
Ganham, potencialmente, países com capacidade de aumentar produção e com parcerias fortes, como Guiana, que já tem ExxonMobil e Chevron entre seus principais investidores, e Brasil, que projeta ascensão produtiva.
O Brasil, segundo projeções citadas por analistas, passa de menos de 4 milhões de barris por dia para uma expectativa de 5 milhões em 2027, o que pode elevar sua importância para compradores como a China.
Perdem, em parte, exportadores que dependem de preços mais altos por barreira de custo, e empresas ou países que veem suas vendas e receitas reduzir-se com um barril mais barato.
Além do impacto comercial, a transformação do mercado exigirá ajustes regulatórios e novas estratégias de investimentos na América Latina, com potencial para redesenhar, nos próximos anos, quem manda e quem sai perdendo no setor de energia.