Como casal de influenciadores 2depais descobriu rombo de R$ 500 mil em acordo com agência, isolamento e atrasos levaram à ação no Ministério Público

Relato do 2depais diz que contrato dava exclusividade à agência, repasses foram retidos, comprovantes de marcas mostraram pagamentos e o caso foi levado ao MP

O casal por trás do perfil 2depais, que soma mais de 2,5 milhões de seguidores, relata ter identificado um rombo de R$ 500 mil ao cruzar comprovantes de pagamento com marcas, após meses de atrasos e falta de transparência por parte da agência que os representava.

Segundo os influenciadores Gustavo Catunda e Robert Rosselló, o contrato dava à agência controle total sobre negociações e repasses, enquanto a dupla era orientada a evitar qualquer contato direto com marcas e colegas.

Com documentos em mãos, eles acionaram um advogado e levaram o caso ao Ministério Público, conforme informação divulgada pelo g1.

Como foi descoberta a discrepância

Os atrasos no repasse pareciam pontuais, com explicações prontas da agência, até que o casal resolveu conferir os pagamentos diretamente com as marcas. Ao cruzar comprovantes enviados por empresas com os valores que a agência dizia não ter recebido, eles concluíram que os pagamentos à Hello Group estavam em dia.

Gustavo e Robert contam que, nos primeiros meses da parceria, a agência “entregou tudo o que prometeu” e o trabalho parecia profissionalizado. Com o crescimento do perfil, porém, vieram atrasos frequentes e a orientação de não falar com ninguém fora da agência, sob a justificativa de preservar a imagem.

Os influenciadores relatam que ouviram instruções semelhantes a esta, “Era sempre assim: ‘nunca conte qual é o seu trabalho, quanto você está ganhando, nunca fale com as pessoas, porque isso vai te derrubar’”. Ao montar uma planilha própria, viram que muita coisa não batia e que o rombo ultrapassa os R$ 500 mil.

Cláusulas contratuais e práticas de exclusividade

O contrato firmado em 2021 dava à agência exclusividade para fechar campanhas, assinar contratos, emitir notas fiscais, receber pagamentos e repassar valores com desconto de 30% de comissão, enquanto 70% ficavam com os influenciadores.

Segundo o casal, a comunicação financeira ficava sempre oculta, eles não tinham acesso aos contratos completos e não recebiam comprovantes regulares. A dupla descreve o ambiente como marcado por atrasos constantes, falta de prestação de contas e uma espécie de “terrorismo psicológico” que incentivava o isolamento.

Consequências para a vida pessoal e desdobramentos judiciais

Sem o repasse dos valores, Gustavo e Robert precisaram emitir notas fiscais sem receber o correspondente, o que os levou a dever impostos e a parcelar mais de R$ 40 mil. O estresse do período, segundo o casal, também teve impacto na saúde, e Robert relatou desenvolver uma doença autoimune ligada ao estresse.

Em uma situação que motivou ação judicial, o advogado do casal apontou que o caso pode caracterizar apropriação indébita majorada. “Nossa filha estava com meningite (…) ela estava passando mal. A gente levou ela para o hospital. No caminho para o hospital, recebemos o primeiro comprovante de que não existia nenhum pagamento em atraso em relação àquela marca”, relatou Robert sobre o momento em que a dupla percebeu a dimensão do problema.

Em decisão desta segunda-feira, o juiz Caio Hunnicutt Fleury Moraes considerou que não havia provas suficientes e negou o depósito judicial e o bloqueio de valores da empresa, mas determinou que uma patrocinadora com contrato de R$ 42 mil com a agência pague a parte dos influenciadores diretamente a eles, conforme informação divulgada pelo g1.

Orientações legais e como reduzir riscos

Ouvida pelo g1, a advogada Mayra Mega Itaborahy, especialista em direito digital, alerta que cláusulas claras de transparência financeira são essenciais para reduzir riscos e evitar retenções indevidas de valores. Ela destaca que contratos podem variar, mas recomenda pontos básicos para proteger criadores.

Entre as medidas sugeridas estão limitar o poder da agência, exigir autorização prévia e por escrito do influenciador para qualquer acordo, e garantir que o criador tenha acesso a todos os contratos feitos em seu nome, com valores, prazos e obrigações. Itaborahy afirma ainda que, mesmo quando a agência negocia sozinha, ela deve apresentar contratos, comprovantes de pagamento e prestações de contas sempre que solicitados.

A advogada lembra que o atraso no repasse de valores caracteriza inadimplência e pode gerar juros e multa, e que, em situações mais graves, pode configurar crime de apropriação indébita, conforme o artigo 168 do Código Penal. Ela também recomenda modelos mais seguros, como repasses diretos ao influenciador, pagamentos separados ou o uso de contas de garantia.

“São contratos específicos, que podem gerar prejuízos e afetar a reputação do criador”, acrescenta Itaborahy, e ressalta que “Contratos, comprovantes e registros escritos são provas essenciais em disputas”, o que reforça a importância de organização documental por parte de quem cria conteúdo.

O caso ganhou repercussão nas redes sociais e, segundo os influenciadores, outros criadores relataram problemas semelhantes, o que coloca em debate a necessidade de maior transparência e de cláusulas contratuais que protejam quem atua como produtor de conteúdo, conforme informação divulgada pelo g1.