Como casal de influenciadores descobriu rombo de R$ 500 mil em contrato com agência, isolamento imposto e falta de prestação de contas

Após meses de atrasos e orientações para não falar com marcas ou colegas, o casal afirma que pagamentos foram quitados, mas a agência não repassou o valor, gerando um rombo de R$ 500 mil

Um casal de influenciadores disse ter descoberto um rombo de mais de R$ 500 mil ao cruzar comprovantes enviados por marcas com os valores que a agência afirmava não ter recebido. A situação veio à tona depois de meses de atrasos, falta de transparência e orientações para que eles cortassem contatos externos, segundo os relatos.

Os responsáveis pelo perfil 2depais, que soma mais de 2,5 milhões de seguidores, afirmam que o contrato dava à agência controle total sobre negociações e repasses, deixando os criadores sem acesso a contratos e sem prestação de contas. A descoberta transformou um problema financeiro em uma disputa judicial e em repercussão nas redes sociais.

Os detalhes do caso e as recomendações para evitar problemas semelhantes foram divulgados pela imprensa, conforme informação divulgada pelo g1.

Como o rombo foi descoberto

Segundo o relato, no início os atrasos pareciam pontuais e vinham com explicações prontas, como dificuldades do mercado e burocracia, o que gerou confiança inicialmente. A agência, identificada pelos influenciadores como Hello Group, coordenava toda a comunicação com marcas, e a dupla recebia apenas briefings, valores e prazos iniciais, sem acesso à etapa financeira.

Ao perceberem inconsistências, os influenciadores passaram a manter sua própria planilha com campanhas e valores. Eles então contataram diretamente algumas marcas e receberam comprovantes de pagamento, alguns datados de meses antes, que mostravam que as campanhas haviam sido quitadas, enquanto a agência dizia o contrário.

Em relato ao g1, os criadores reproduziram uma orientação que recebiam da agência, “nunca conte qual é o seu trabalho, quanto você está ganhando, nunca fale com as pessoas, porque isso vai te derrubar”, e também disseram que ouviam “Deixa que eu tomo conta de tudo, eu resolvo tudo”. Com a documentação reunida, procuraram um advogado e levaram o caso ao Ministério Público.

Contrato, exclusividade e práticas apontadas

O contrato fechado dava à agência exclusividade para fechar campanhas, assinar contratos, emitir notas fiscais, receber pagamentos e repassar valores, com uma comissão de 30% para a empresa e 70% para os influenciadores, conforme o casal. Sem relatórios ou acesso aos documentos financeiros, os atrasos se tornaram frequentes, e a orientação para evitar contatos externos foi reforçada.

Os influenciadores relataram que, quando conseguiam acompanhar alguma conversa, era apenas a parte inicial, enquanto a etapa financeira ficava sempre escondida. A ausência de prestação de contas e a resistência em fornecer documentos aumentaram a suspeita de retenção indevida de valores.

Com a documentação reunida, o advogado levou o caso ao Ministério Público, apontando que a situação pode caracterizar apropriação indébita majorada, que ocorre quando alguém recebe dinheiro em nome de outra pessoa e não o repassa. O pedido incluiu bloqueio de bens da agência e prestação de contas.

Decisão judicial e impactos financeiros e pessoais

Em decisão citada pela reportagem, o juiz Caio Hunnicutt Fleury Moraes considerou que não havia provas suficientes e negou o depósito judicial e o bloqueio de valores da empresa, mas determinou que uma patrocinadora com contrato de R$ 42 mil com a agência pague a parte dos influenciadores diretamente a eles, segundo o g1.

Os criadores dizem que, sem receber os valores devidos, precisaram emitir notas fiscais sem ter o dinheiro correspondente, acumulando dívidas e parcelando mais de R$ 40 mil em impostos. Além do prejuízo financeiro, relataram impactos na saúde e no cotidiano, incluindo desenvolvimento de doença autoimune ligada ao estresse e sensação de insegurança.

O casal afirmou também que, após divulgar o caso, outros influenciadores os procuraram relatando problemas semelhantes com a agência, o que, segundo eles, indica que não se trata de um episódio isolado.

Cuidados contratuais e orientações de especialista

Ouvida pela reportagem, a advogada Mayra Mega Itaborahy, especialista em direito digital, ressaltou a importância de cláusulas claras de transparência financeira para reduzir riscos. Ela listou pontos básicos que contratos de representação devem prever, como limitar o poder da agência, exigir autorização prévia e por escrito para acordos, e garantir acesso total aos contratos feitos em nome do influenciador.

Itaborahy alertou que, mesmo quando a agência negocia sozinha, ela deve apresentar, sempre que solicitados, os contratos, comprovantes de pagamento e prestações de contas detalhadas. Ela afirmou, “São contratos específicos, que podem gerar prejuízos e afetar a reputação do criador”.

A advogada explicou que o atraso no repasse de valores caracteriza inadimplência e pode gerar juros e multa, e que, “Em situações mais graves, pode configurar crime de apropriação indébita (art. 168 do Código Penal)”, conforme declarou ao g1. Ela também criticou cláusulas que proíbem totalmente o contato direto entre influenciador e marcas, dizendo que isso “pode ser questionado juridicamente por ferir princípios de razoabilidade e boa-fé”.

Modelos de contrato mais seguros, segundo a especialista, incluem repasses diretos ao influenciador, pagamentos separados ou o uso de contas de garantia, além de prazos claros, formas de pagamento, multas e regras de rescisão. Manter contratos, comprovantes e registros escritos foi destacado como essencial para qualquer disputa.

O que observar ao fechar parcerias

O caso ressalta sinais de alerta em relações entre criadores e agências: exclusividade excessiva, falta de relatórios, resistência em fornecer documentos e orientações para evitar contatos. Exigir transparência, ter acesso a todos os contratos e guardar comprovantes são medidas práticas que reduzem riscos.

Para influenciadores que trabalham com representação, organizar a própria planilha financeira e checar pagamentos diretamente com as marcas, sempre que possível, pode evitar surpresas. Em caso de problemas, reunir documentos e buscar orientação jurídica especializada são passos recomendados.

As informações acima foram apresentadas ao público por meio de reportagem, conforme informação divulgada pelo g1.