O racionamento de combustível em Cuba intensifica uma crise que combina falta de gasolina, usinas obsoletas e medidas externas que tornam o cenário mais imprevisível
Nos bairros de Havana, famílias já voltaram a cozinhar com carvão e lenha, e muitos relatam apagões longos que lembram o Período Especial dos anos 1990.
O governo anunciou um plano extraordinário de economia de energia e racionamento do combustível, enquanto a população se reorganiza para reduzir deslocamentos e priorizar serviços essenciais.
As informações e relatos usados nesta matéria são, em sua maioria, consoante com material publicado e apurado pelo g1, conforme informação divulgada pelo g1
Cenas do dia a dia e memórias do passado
Moradores descrevem que, por necessidade, cozinham para várias famílias em fogões improvisados, usando lenha e carvão, e convivem com fuligem e fumaça em casa.
Elizabeth Contreras conta que, de forma parecida com três décadas atrás, sofreu cortes de eletricidade de até 18 horas nas últimas semanas, em mais de uma ocasião, o que remete ao chamado “Período Especial”.
Enquanto alguns conseguem apoio de parentes no exterior ou trabalham por conta própria, muitos vivem com um salário médio de 6.830 pesos cubanos, o que equivale a US$ 14 pelo câmbio informal, cerca de R$ 73, segundo dados de novembro do Escritório Nacional de Estatísticas e Informações da República de Cuba.
Com esse rendimento, itens essenciais ficam caros, uma garrafa de óleo custa cerca de US$ 2,50, e uma caixa com 30 ovos, quase US$ 6, segundo relatos de moradores.
Causas apontadas e pressões externas
O governo atribui a escassez a problemas crônicos na produção de energia, usinas termoelétricas obsoletas e falta de divisas, além do impacto do bloqueio econômico dos Estados Unidos desde os anos 1960.
Após a captura do então presidente venezuelano Nicolás Maduro em Caracas, no dia 3 de janeiro, o governo dos Estados Unidos publicou medidas que dificultaram o acesso de Cuba ao combustível, e o presidente Donald Trump ameaçou impor tarifas de importação a países que enviassem petróleo à ilha, segundo relatos do g1.
Em meio ao aperto, houve também um incêndio em uma refinaria de Havana, cuja causa está sob investigação, e movimentos diplomáticos, como anúncios de que a Rússia enviará petróleo, e promessas mexicanas de ajuda humanitária e envios de alimentos.
Medidas do governo e alternativas da população
O presidente Miguel Díaz-Canel declarou, em discurso no dia 5, que “Vamos viver tempos difíceis”, e apresentou um plano de economia que inclui racionamento da venda de combustível, priorização para serviços essenciais e atividades econômicas imprescindíveis.
O plano resgata o conceito de “opção zero”, elaborado nos anos 1990, caso o país enfrente um cenário de “zero petróleo”.
Na prática, estudantes e trabalhadores têm adotado aulas semipresenciais, teletrabalho quando possível, e rotinas domésticas adaptadas, como estocar água, reunir lâmpadas e carregadores portáteis, e reduzir deslocamentos por falta de transporte.
Impactos sociais e incertezas sobre o futuro
Para pais, a falta de luz nas escolas é uma preocupação real, crianças ficam sem atividades básicas e sem acesso contínuo à internet para tarefas e lazer.
Especialistas apontam que, embora o impacto percentual no PIB seja menor do que o colapso observado entre 1991 e 1994, a economia nunca se recuperou totalmente do Período Especial, e a crise atual agrava desigualdades crescentes entre quem tem acesso a remessas e quem depende apenas dos rendimentos locais.
O professor Michael Bustamante, da Universidade de Miami, observa que, entre 1991 e 1994, o PIB de Cuba desabou em mais de um terço, enquanto da pandemia para cá estima-se uma deterioração de cerca de 11%, dados que ajudam a contextualizar diferenças de magnitude entre os períodos.
Há ainda um componente geopolítico que aumenta a incerteza, com debates sobre se as sanções visam forçar mudança de governo, ou se resultarão apenas em maior sofrimento da população, sem alterações políticas decisivas.
O que a população teme e como se organiza
Muitos temem que a crise se torne mais aguda, lembrando que nos anos 1990 o racionamento atingiu toda a população por igual, enquanto hoje há desigualdades marcantes entre os que têm recursos e quem vive com o salário estatal.
Usuários de redes sociais e moradores compartilham técnicas de sobrevivência, como cozinhar com lenha, lavar roupas em rios e acumular água e geradores portáteis, enquanto líderes locais tentam manter serviços essenciais funcionando.
O cenário permanece volátil, e autoridades, população e observadores internacionais acompanham a evolução das restrições de combustível, a resposta de parceiros externos e os efeitos sobre a vida cotidiana em Cuba.
As informações e relatos compõem um quadro em transformação, e a tendência é que o racionamento de combustível em Cuba continue determinando rotinas, decisões econômicas e prioridades sociais nos próximos meses.