Racionamento de combustível em Cuba avança e cria risco real de cenário ‘combustível zero’, com apagões longos, cortes no transporte e famílias cozinhando com lenha
O país enfrenta uma escassez que se agravou desde 2024, e, em 2026, aproxima-se de um colapso imprevisível.
O governo anunciou um plano extraordinário de economia de energia, e a população recorre a alternativas como carvão e lenha para cozinhar, enquanto ruas e serviços sentem redução do tráfego.
As informações a seguir reúnem relatos de moradores, dados sobre preços e medidas políticas, conforme informação divulgada pelo g1.
Causas externas e internas do racionamento
O agravamento do racionamento de combustível em Cuba tem origem dupla, externa e interna. Desde a captura do então presidente venezuelano, Nicolás Maduro, em 3 de janeiro, os Estados Unidos publicaram medidas que dificultaram o acesso da ilha a combustíveis.
O governo americano, segundo relatos, ameaçou impor tarifas a países que enviassem petróleo a Cuba e trabalhou para reduzir os embarques venezuelanos, aliado até então fundamental para Havana.
Em paralelo, Cuba enfrenta problemas crônicos na geração de eletricidade, com usinas termoelétricas obsoletas, queda na produção e falta de divisas para comprar combustível no mercado internacional, fatores que ampliam o impacto do racionamento.
Medidas, ajuda externa e ameaças
O presidente cubano Miguel Díaz-Canel anunciou um plano de economia e evocou a chamada “opção zero”, criada nos anos 1990 para um cenário de total falta de petróleo.
Após as sanções e pressões, o México enviou dois navios com pouco mais de 800 toneladas de suprimentos alimentares, e a presidente mexicana Claudia Sheinbaum informou que outros embarques somariam 1.500 toneladas, sem confirmar o envio de petróleo.
Há, ainda, menções na imprensa a acordos com a Rússia para envio de combustível, e o Brasil avalia enviar ajuda humanitária, segundo relatos citados.
Como a população vive o dia a dia
No cotidiano, moradores descrevem uma mistura de normalidade e adaptação. Algumas avenidas de Havana apareceram vazias em imagens recentes, e cortes de eletricidade de até 18 horas foram relatados em mais de uma ocasião.
Testemunhas relatam cozinhar com carvão e lenha, e usuários de redes sociais mostram técnicas para lavar roupa em rios e improvisar cozinhas a lenha. Um dos relatos diz, que “Cozinhamos com carvão e lenha para 3 famílias na vizinhança”.
As famílias mais vulneráveis sofrem mais, com salários médios baixos, consumo caro e pouca margem de manobra. Segundo dados oficiais citados, o salário médio é de 6.830 pesos cubanos (US$ 14 pelo câmbio informal, cerca de R$ 73), enquanto itens básicos, como óleo e ovos, consomem grande parte dessa renda.
Comparação com o Período Especial e riscos sociais
Muitos cubanos fazem associação com o chamado Período Especial dos anos 1990, após a queda da União Soviética, quando faltou petróleo e houve racionamento extremo. Alguns residentes acham, porém, que a situação atual pode ser ainda mais dura.
O professor Michael Bustamante, da Universidade de Miami, citado nas informações, explica que a queda do PIB nos anos 1990 foi mais profunda, mas observa que a economia nunca se recuperou totalmente desde então.
Além disso, a crise atual mostra desigualdades maiores, porque, após as reformas e surgimento de lojas privadas, quem tem recursos consegue amenizar o impacto, enquanto a maior parte da população fica mais exposta.
O que mudará na rotina e cenários esperados
O plano do governo inclui racionamento na venda de combustíveis, priorização para atividades essenciais e serviços, incentivo ao trabalho remoto e aulas semipresenciais nas universidades.
Muitos moradores armazenam água, acumulam lanternas e carregadores, e evitam deslocamentos. Uma das preocupações recorrentes é a mobilidade em caso de doença, porque a limitação de transporte pode impedir o acesso a serviços básicos.
O presidente Díaz-Canel alertou, que “Vamos viver tempos difíceis”, frase que resume a urgência das medidas anunciadas, e autoridades investigam um incêndio em uma refinaria em Havana, cuja causa ainda não foi esclarecida.
O futuro imediato depende de decisões internacionais e da capacidade do governo em administrar cortes, negociar suprimentos e proteger os mais vulneráveis, enquanto a população se ajusta com criatividade e apreensão.