Governo anuncia plano de economia, racionamento da venda de combustível, aulas semipresenciais e priorização de serviços essenciais enquanto população recorre a lenha e carvão
A ilha enfrenta uma crise de combustível e energia elétrica que se agravou desde meados de 2024 e, em 2026, se aproxima de um cenário de difícil previsão.
O governo cubano lançou medidas para cortar consumo, limitar a venda de combustível e priorizar serviços essenciais, enquanto moradores improvisam cozinhas a lenha e adaptam rotinas.
Conforme informação divulgada pelo g1
Como se chegou aqui
O quadro atual reúne fatos recentes e problemas crônicos. Após a captura do então presidente venezuelano Nicolás Maduro em Caracas, no dia 3 de janeiro, os Estados Unidos adotaram medidas que dificultaram o acesso de Cuba a combustíveis, e o presidente norte-americano, Donald Trump, chegou a ameaçar impor tarifas a países que enviassem petróleo para a ilha.
Em meio a essa pressão externa, uma refinaria em Havana pegou fogo e está sob investigação, e o país sofre com usinas termoelétricas obsoletas, baixa produção e falta de divisas para comprar combustível no mercado internacional.
Em pronunciamento no dia 5 de fevereiro, o presidente Miguel Díaz-Canel afirmou, "Vamos viver tempos difíceis", ao anunciar um plano extraordinário de economia de energia que inclui o racionamento da venda de combustível e a priorização de uso para atividades e serviços essenciais.
Medidas, ajuda internacional e receios
Apesar das ameaças americanas, o México enviou ajuda, com dois navios carregados com pouco mais de 800 toneladas de suprimentos alimentares que partiram do porto de Veracruz em 8 de fevereiro, e a presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, afirmou que mais 1.500 toneladas de alimentos serão enviadas em carregamentos futuros.
Autoridades mexicanas disseram que apoio humanitário seguiria, mas não detalharam se manteriam envios de petróleo. Há menção também de que a Rússia pretende enviar combustível, segundo veículos de imprensa russos, enquanto o Brasil avalia remessas de alimentos e medicamentos.
O governo cubano resgatou o conceito de "opção zero", criado nos anos 1990 para um cenário de "zero petróleo", e adotou medidas como priorizar o trabalho à distância e implementar aulas semipresenciais nas universidades.
Impacto direto na vida das pessoas
Na prática, muitos cubanos voltaram a improvisar. Uma moradora descreve que "cozinhamos com carvão e lenha para 3 famílias na vizinhança", e tutoriais em redes sociais mostram como usar lenha para cozinhar e lavar roupas em rios.
Testemunhos relatam apagões que lembram o passado. Uma moradora afirmou, "de forma parecida com três décadas atrás, sofremos cortes de eletricidade de até 18 horas nas últimas semanas, em mais de uma ocasião".
Outros relatos apontam redução do tráfego em vias importantes, dificuldades para se deslocar a trabalho ou escola e preocupação com crianças que ficam sem luz para estudar, nem acesso a internet e entretenimento.
O contraste social se acentua. Alguns cubanos têm suporte de familiares no exterior ou trabalham por conta própria, mas muitos vivem com renda muito baixa, e os preços básicos consomem grande parte do orçamento.
salário mensal médio de 6.830 pesos cubanos (US$ 14 pelo câmbio informal, cerca de R$ 73), segundo dados de novembro do Escritório Nacional de Estatísticas e Informações da República de Cuba.
Para famílias sem remessas, uma garrafa de óleo a cerca de US$ 2,50 e uma caixa com 30 ovos por quase US$ 6 representam gastos significativos frente ao rendimento médio oficial informado.
Memórias do Período Especial e cenários políticos
O racionamento atual evoca o &b>Período Especial dos anos 1990, quando o fim da União Soviética deixou a ilha em escassez extrema. Muitos comparam a situação, mas especialistas ponderam diferenças econômicas entre as duas crises.
O professor Michael Bustamante, da Universidade de Miami, observa que "Entre 1991 e 1994, o PIB desabou em mais de um terço", e que, mais recentemente, "Da pandemia para cá, calcula-se uma deterioração de cerca de 11%".
Bustamante acrescenta que "A economia cubana nunca se recuperou totalmente do Período Especial. E, embora o colapso atual seja percentualmente menor, para muitos parece ser pior porque se parte de uma situação que, por si só, já é delicada".
Analistas apontam que medidas externas podem ter efeitos políticos variados, e há receio entre a população sobre se a pressão internacional buscará provocar mudança de governo ou forçará uma crise humanitária.
Enquanto isso, medidas práticas como racionamento de combustível, priorização de serviços, aulas semipresenciais e recomendações para economizar energia devem moldar a rotina dos cubanos nas próximas semanas.
Fontes: informações e relatos compilados a partir do material publicado pelo g1 e matérias referenciadas pela BBC News Mundo, conforme informação divulgada pelo g1