Como fundos da Reag foram usados para inflar o patrimônio do Banco Master, com empréstimos de R$459 milhões, títulos superavaliados e retorno em CDBs

Investigação do BC e da PF aponta que fundos da Reag movimentaram R$450 milhões entre veículos próprios, compraram títulos do Besc e devolveram recursos ao Master em horas

Uma sequência de operações em abril de 2024 está no centro das apurações que envolvem fundos da Reag e o Banco Master, investigadas pela Polícia Federal e pelo Banco Central.

Segundo as informações, recursos do próprio Master circularam por diversos fundos administrados pela Reag, foram usados para comprar títulos antigos, e retornaram ao banco em pouco tempo, dando a impressão de maior patrimônio e liquidez.

O esquema investigado inclui empréstimos, transferências em cadeia entre fundos e superavaliação de ativos, conforme informação divulgada pelo g1.

O mecanismo identificado pelo Banco Central

De acordo com a apuração citada pelo g1, o ponto de partida foi um empréstimo de R$459 milhões concedido pelo Banco Master à empresa Brain Realty Consultoria em 22 de abril de 2024.

Dois dias depois, a Brain Realty transferiu quase todo o montante, R$450 milhões, para o fundo Brain Cash, administrado pela Reag. Em poucos minutos, esse dinheiro transitou por outros fundos da mesma gestora, como D Mais e High Tower, em operações de alta velocidade.

Os recursos foram então usados pelo fundo High Tower para adquirir títulos antigos do extinto Banco do Estado de Santa Catarina, o Besc. Embora esses títulos tenham custado cerca de R$850 milhões, o fundo registrou em seus demonstrativos que o ativo valia mais de R$10 bilhões, inflando artificialmente o patrimônio e a rentabilidade.

Parte desses títulos supervalorizados foi revendida a outros fundos da Reag, como o D Mais, por valores bilionários, ampliando a distorção contábil. Ao longo do mesmo dia, os R$450 milhões iniciais foram pulverizados entre vários fundos da Reag, entre eles Anna, Astralo 95 e Growth 95.

Cerca de três horas depois das operações, os fundos aplicaram praticamente todo o valor em CDBs do próprio Banco Master. Na prática, o dinheiro circulou por diversos veículos e retornou ao banco, segundo a investigação, com o objetivo de inflar o patrimônio e transmitir uma falsa sensação de solidez e liquidez.

Liquidação extrajudicial da CBSF, antiga Reag Trust

Em nota citada pelo g1, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários, novo nome da Reag Trust DTVM, encerrando de imediato as atividades da gestora.

O BC afirmou que a decisão foi tomada em razão do descumprimento de “regras legais e prudenciais”, o que comprometeu a capacidade da empresa de operar de forma segura.

A medida atinge a instituição, mas não os fundos sob sua gestão, que seguem ativos e deverão buscar novos administradores. O Banco Central informou ainda que “continuará adotando todas as medidas cabíveis para apurar as responsabilidades” e que o resultado das apurações “poderá levar à aplicação de medidas sancionadoras de caráter administrativo e ao encaminhamento de comunicações às autoridades competentes”.

O BC também determinou que, “Nos termos da lei, ficam indisponíveis os bens dos controladores e dos ex-administradores da instituição”. A APS Serviços Especializados de Apoio Administrativo Ltda. foi nomeada pelo Banco Central como liquidante da Reag.

Apurações da Polícia Federal e vínculos suspeitos

A Polícia Federal investiga se a Reag, por meio da CBSF, atuou na estruturação e administração de fundos usados para movimentar recursos de forma atípica, inflar resultados e ocultar riscos, com indícios de fraude e de lavagem de dinheiro envolvendo o Banco Master.

A Reag já vinha sendo investigada pela PF por suspeitas de envolvimento com a facção PCC, e também entrou no foco da Operação Compliance Zero, que apura um esquema de fraudes financeiras envolvendo o Master.

As investigações apontam ainda que donos do Banco Master e do grupo Reag Investimentos teriam utilizado familiares para ocultar o real controle de ativos e fundos. No caso do Master, foram alvo da operação familiares de membros da direção do banco.

Consequências para investidores e próximos passos

Os fundos administrados pela Reag permanecem ativos, mas precisam de novos administradores para seguir funcionando. Investidores podem enfrentar incertezas enquanto as cotas e os ativos passam por reavaliações e eventuais reestruturações.

Autoridades prometem aprofundar as apurações e avaliar responsabilizações civis e penais, além de aplicar medidas administrativas, conforme apontado pelo Banco Central e pela Polícia Federal, citado pelo g1.

Enquanto as investigações prosseguem, o caso reforça a atenção às práticas de governança e de avaliação de ativos em gestoras e bancos, e torna evidente o risco de estruturas que permitam que o próprio banco financie aparente liquidez, por meio de complexas triangulações entre fundos da Reag e o Banco Master.