Como o colapso do Banco Master expôs os limites do FGC, R$51 bilhões em pagamentos, risco moral e o impacto nas tarifas, juros e crédito no Brasil

A necessidade de recompor o Fundo Garantidor de Créditos, a demora em ressarcimentos e a mudança no modelo de financiamento podem elevar custos, reduzir crédito e alterar comportamento de investidores

O colapso do Banco Master, e a liquidação dos bancos do mesmo grupo, colocou em evidência os limites da proteção do FGC e gerou impacto direto na confiança de investidores e na estrutura de custos do sistema financeiro.

Muitos clientes que confiaram em títulos oferecidos como “protegidos pelo FGC” passaram meses à espera de ressarcimento, e parte dos casos ainda não foi paga, o que reforça dúvidas sobre o uso do fundo como argumento comercial.

As informações e dados citados a seguir constam, conforme informação divulgada pelo g1.

Como funciona a garantia do FGC

O FGC foi criado em 1995 e atua como um seguro que garante a devolução de valores aplicados ou depositados em instituições financeiras que venham a quebrar.

O fundo assegura até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ em cada grupo financeiro, e existe também um limite total de R$ 1 milhão a cada quatro anos, somando o valor aplicado e os rendimentos acumulados até a data da liquidação ou falência.

Os recursos do FGC vêm das contribuições mensais dos bancos associados, que pagam atualmente uma taxa de 0,01% sobre o saldo dos depósitos cobertos pelo fundo, e que, para instituições mais expostas a riscos, foi elevada para 0,02% em medida do Conselho Monetário Nacional.

O que o colapso do Master revelou

O caso do Banco Master mostrou que, mesmo com a garantia, muitos investidores enfrentaram longos prazos até ver o dinheiro novamente disponível. Segundo o fundo, ele terá de desembolsar cerca de R$ 51 bilhões para ressarcir clientes do Master, do Will Bank e do Banco Pleno.

Até o momento, o FGC informou que já desembolsou R$ 37,2 bilhões, e que 653 mil credores do Master receberam os valores, o que representa 84% dos beneficiários. As demandas ainda pendentes envolvem empresas e situações específicas, como menores de idade e inventários, que exigem documentação adicional.

O episódio também expôs práticas comerciais que usaram o selo do FGC como argumento de venda. Sobre isso, a economista Ione Amorim, do Idec, afirmou, “O FGC foi apresentado como garantia absoluta para atrair investidores menos experientes. Todo investimento envolve risco, mesmo com a proteção do fundo, e isso, pelo visto, nem sempre foi explicado de forma clara pelas corretoras”, afirma.

Risco moral, dever fiduciário e experiência de investidores

Especialistas ouvidos apontam que corretoras e bancos, ao reforçarem a ideia de proteção total pelo FGC, reduziram a percepção do risco em produtos que, na prática, ofereciam rendimentos acima do mercado em troca de maior exposição à insolvência da instituição emissora.

O advogado Adilson Bolico comentou que essa dinâmica pode ter gerado uma “quebra do dever fiduciário”, isto é, da obrigação dos bancos e corretoras de agir no melhor interesse do cliente. Para muitos investidores, a promessa de rentabilidade elevada, com prazos curtos de resgate, foi decisiva.

O advogado Roberto Panucci destacou outro ponto, “Ao encarecer o uso da cobertura do FGC, o regulador reconhece que o modelo atual gera incentivos distorcidos. A reforma é, na prática, uma admissão de que a garantia estimula comportamentos de risco.” Segundo Panucci, recuperar o capital não garante que a operação tenha sido vantajosa, pois meses sem acesso ao dinheiro corroem ganhos quando se considera inflação e oportunidade perdida.

Impacto para bancos, consumidores e o financiamento do FGC

Antes do caso Master, o FGC tinha mais de R$ 140 bilhões em caixa, agora será preciso recompor essa reserva, o que pode resultar em custos repassados aos clientes e em menor disponibilidade de crédito.

Entre as medidas discutidas pelo fundo estão antecipar contribuições de bancos, com o plano de adiantar o equivalente a 60 meses de contribuições ainda em 2026, além de mais 12 meses em 2027 e outros 12 meses em 2028, criar uma cobrança extra sem prazo definido para as instituições associadas, e negociar com o Banco Central o uso de parte do compulsório para reforçar os recursos.

Especialistas defendem que a contribuição ao FGC deveria refletir o risco de cada instituição, e não ser igual para todos. Conforme o economista Armando Castelar, da FGV Ibre, a cobrança igual buscou estimular a entrada de bancos menores, mas hoje pode gerar distorções, pois instituições mais arriscadas acabam transferindo o custo do risco para o conjunto do sistema.

Para consumidores, a consequência prática pode vir na forma de tarifas mais altas, juros maiores em empréstimos, menor rendimento em aplicações e critérios de crédito mais apertados, conforme observado por analistas e pelo Idec, pois com menos capital disponível, bancos e fintechs podem reduzir ou encarecer financiamentos.

O que os investidores devem levar em conta

O caso do Master funciona como alerta para quem investe em produtos de renda fixa com promessa de rendimentos muito acima do mercado, mesmo quando há a cobertura do FGC. Investidores iniciantes, em particular, podem ter a impressão de proteção absoluta, quando, na prática, enfrentam prazos e perdas indiretas.

Especialistas recomendam, antes de aplicar, verificar a saúde da instituição emissora, entender a natureza do produto, considerar o limite de cobertura do FGC, e não basear decisões apenas no selo de proteção, pois recuperar o principal não equivale a ter obtido retorno real, após inflação e tempo de imobilização dos recursos.

O desfecho do caso ainda terá desdobramentos regulatórios e de mercado, e deve influenciar tanto a forma como produtos são vendidos, quanto a maneira como o fundo é financiado no futuro, com impacto potencial sobre custos bancários e oferta de crédito.