Como o México se tornou o maior beneficiado pelas tarifas de Trump em 2025, por que exportações cresceram quase 6% e qual é o teste decisivo do T-MEC em 2026

Análise do aumento das exportações mexicanas aos EUA, os números das tarifas efetivas, a proteção do T-MEC e o risco da renegociação após declarações de Trump

O México ampliou sua presença no mercado americano em 2025, enquanto muitos outros parceiros sofreram com a nova onda de tarifas do governo Trump.

O crescimento sustentado das exportações mexicanas e a escolha de empresas por produzir na região explicam parte dessa vantagem, mas há fatores de risco imediatos pela frente.

Os dados e análises a seguir reconstituem por que o país foi um dos “ganhadores inesperados” da política tarifária e qual será o teste decisivo para manter essa posição, conforme informação divulgada pelo g1.

Por que o México saiu na frente

Uma combinação de isenções específicas e decisões de mercado tornou o México relativamente protegido das tarifas de Donald Trump. Segundo o Modelo de Orçamento Penn Wharton, da Universidade da Pensilvânia, os produtos mexicanos pagaram uma tarifa de importação efetiva de 4,6% em outubro de 2025, muito abaixo da média global após o anúncio das tarifas.

O Canadá apresentou tarifa efetiva de 3,9%, e a China enfrentou 37,1%, refletindo o foco do governo americano em restringir algumas origens, enquanto privilegiava parceiros norte-americanos quando produtos atendem regras específicas.

Na prática, isso levou investidores e fabricantes a optar por manter ou ampliar produção no México, tanto por proximidade geográfica quanto por custo-benefício diante de um cenário tarifário volátil.

O papel do T-MEC na estratégia de exportação

Especialistas destacam que uma das chaves para o bom desempenho mexicano foi a proteção concedida pelo T-MEC. Erica York, da Tax Foundation, afirmou, “Uma das maiores isenções às tarifas do ‘Dia da Libertação’ do presidente americano foi para os produtos que atendem às exigências do T-MEC”.

Antes da onda tarifária, parte significativa do comércio não obedecia às regras do acordo, porque alguns exportadores preferiam pagar tarifas baixas em vez de cumprir trâmites. Em 2024, cerca de 38% das importações americanas procedentes do Canadá e 49% das procedentes do México ocorreram no âmbito do acordo.

Com as novas tarifas, esses percentuais saltaram, segundo a analista, para cerca de 86% a 87% dos produtos, indicando que muitos exportadores mudaram de estratégia para escapar das novas alíquotas.

Dados e setores que limitaram o ganho

Os números oficiais mostram que o México registrou crescimento de 5,66% nas exportações para os Estados Unidos em 2025, segundo dados citados pelo g1. Ainda assim, nem todos os setores acompanharam esse ritmo.

O setor automotivo, por exemplo, cresceu apenas 0,9% em 2025, resultado abaixo do esperado, mesmo após negociações que limitaram tarifas a componentes não fabricados nos EUA. Produtos como aço e alumínio sofreram com tarifas de 25% e registraram queda nas exportações.

Além disso, enquanto fornecedores de outras regiões escoavam estoques contratados antes das tarifas, a demanda gradualmente migrou para fabricantes com presença no México, ajudando a sustentar o aumento agregado.

O teste decisivo: a renegociação do T-MEC em 2026

O principal desafio para consolidar esse ganho será a renegociação do T-MEC, marcada para 2026, em um ambiente político imprevisível. Em 13 de janeiro, Trump afirmou que, para ele, o T-MEC “parece ‘irrelevante'”, gerando dúvidas sobre a continuidade do acordo.

Na mesma sequência, o presidente americano disse, “Nem mesmo penso no T-MEC. Quero o bem do Canadá e do México. Mas o problema é que não precisamos dos seus produtos” e, ainda, “Não precisamos de carros fabricados no Canadá. Não precisamos de carros fabricados no México. Queremos fabricá-los aqui.”

A reação mexicana foi imediata, com a presidente Claudia Sheinbaum dizendo estar “certa de que nossa relação comercial com os Estados Unidos irá continuar”. Analistas, como Mario Campa, alertam que os cenários vão do mais favorável até “uma catástrofe para o México” durante as negociações.

Campa ressalta que o avanço do Canadá em buscar acordos fora do bloco, como representantes de seu governo assinaram novos pactos com a China, é um mau sinal para a coesão do T-MEC.

Para reduzir riscos, Campa recomenda que o México amplie planos para diversificar mercados, citando o “Plano México” anunciado pelo governo de Sheinbaum, e que explore alternativas para não depender apenas do fluxo com os Estados Unidos.

O que vigiar nos próximos meses

Os indicadores a observar são a evolução das tarifas efetivas, o resultado da rodada de negociações do T-MEC, e movimentos de empresas que podem acelerar o nearshoring para o México ou, ao contrário, trazer produção de volta aos EUA.

Se as isenções ligadas ao T-MEC persistirem, o México pode manter a vantagem obtida em 2025. Caso o acordo perca força ou seja reestruturado de forma desfavorável, o país terá de aprofundar sua estratégia de diversificação comercial.

No curto prazo, o que sustentou o ganho mexicano foi a conjunção entre isenções do T-MEC, localização, e decisões empresariais diante de um mercado global em rápida reconfiguração, fatores que agora serão testados pela renegociação e pelo clima político entre os países.