Como o pé de galinha saiu do resto de açougue para virar ‘negócio da China’, faturando US$ 221 milhões em 2025 e impulsionando indústria pet e exportações
Do snack vendido em máquinas na China às panelas da África do Sul, a procura externa e a indústria pet mudaram o valor e o destino do pé de galinha brasileiro
O pé de galinha deixou de ser sobra de açougue e virou produto cotado no mercado internacional, com impacto direto no preço pago ao produtor e no comércio exterior do Brasil.
Consumido como snack na China, ingrediente para caldos ricos em colágeno e usado em receitas populares na África do Sul, o miúdo ganhou valor econômico e cultural fora do país.
A abertura do mercado chinês, somada à demanda da indústria pet, criou uma cadeia de valor que elevou receitas e alterou o mercado interno.
conforme informação divulgada pelo g1
Exportações e números que explicam a valorização
“Só em 2025, a indústria nacional faturou US$ 221 milhões com a venda do pé de galinha para o mercado chinês, principal destino do miúdo brasileiro.” O número foi divulgado pelo Ministério da Agricultura e mostra o peso das exportações para a economia do setor.
Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal, afirma que a transformação ocorreu após a China autorizar o Brasil a exportar carne de frango em 2009, e que hoje, “A China é o mercado que melhor remunera o pé de galinha, pagando cerca de US$ 3 mil por tonelada”.
A África do Sul é o segundo maior comprador, pagando cerca de US$ 2 mil por tonelada, e ampliou suas compras em 2025, atingindo US$ 49 milhões, mais de quatro vezes o volume do ano anterior.
Como a China consome o pé de galinha
Na China, o pé de galinha é consumido como petisco, embalado e temperado, e pode ser encontrado em lojas de rua e em máquinas automáticas em estações de metrô e shoppings.
A chef Jiang Pu, que lembra que “Eu acho engraçado que quando os meus pais vieram para o Brasil, em 1998, o pé de galinha era dado de graça no açougue. Tinha muita sobra, minha mãe pegava um monte”, conta que na cultura de sua família o pé é usado como entrada e em saladas, e que a textura crocante lembra a pele de porco.
Jiang também descreve o consumo informal, dizendo que “Você come o pé de galinha chupando, roendo ele, então demora um pouquinho. É para quando está com vontade de mastigar alguma coisa”, e destaca o uso do pé para engrossar caldos por ser rico em colágeno.
Receitas e história na África do Sul
No mercado sul-africano, o pé de galinha aparece em pratos como o “walkie-talkie”, que reúne pé e cabeça do frango e reflete tradições culinárias forjadas durante os períodos colonial e segregacionista.
Mariana Bahia, representante da Câmara de Comércio Brasil – África do Sul, explica que, diferente da China, o pé é bem cozido e ensopado, lembrando um ensopado mineiro, e que os pratos costumam ser temperados com curry, páprica, cúrcuma e gengibre.
Os walkie-talkies também são servidos com o pap, uma polenta de milho, como acompanhamento, e representam práticas de aproveitamento integral do animal, comuns em várias regiões africanas.
Impacto no mercado interno e na indústria pet
No Brasil, o preço ao atacado do pé de galinha chegou a uma média de R$ 5,75 em 2026, valor que é 41,3% mais alto que a média registrada em 2020, conforme série histórica levantada pelo analista Fernando Iglesias, do Safras & Mercado.
Santin ressalta que a valorização não se explica só pela exportação, porque “O pé de galinha que não é exportado, é destinado principalmente à indústria pet”, que usa o produto para produzir farinhas na cadeia de alimentação animal.
O movimento transformou um subproduto antes descartado em fonte de renda para frigoríficos e para o setor avícola brasileiro, com efeitos sobre preços, logística e destinos comerciais.
Em relatos pessoais, consumidores e chefs relatam que o pé de galinha passou de resto de açougue a item cultural valorizado, e que a globalização do paladar ajudou a consolidar esse novo mercado.