Como proposta de imposto sobre bilionários na Califórnia detonou reação no Vale do Silício, provocou mudança de endereços e abriu racha no Partido Democrata
Proposta de imposto sobre bilionários na Califórnia prevê alíquota única progressiva de até 5% a partir de US$ 1 bilhão, retroativa e com meta de arrecadar US$ 100 bilhões
A movimentação no Vale do Silício no final de 2025 reflete mais do que descontentamento, ela expressa um choque potencial entre política fiscal e a elite tecnológica local.
Rumores de mudanças de domicílio de bilionários surgiram após a divulgação de uma proposta que taxaria fortunas a partir de US$ 1 bilhão, com aplicação retroativa a 1º de janeiro de 2026.
No centro da proposta está a ideia de arrecadar recursos para a saúde pública, prometendo destinar a maior parte da receita a hospitais e assistência, conforme informação divulgada pelo g1.
O que prevê a proposta e como funcionaria o imposto
A medida foi apresentada pelo sindicato Service Employees International Union-United Healthcare Workers West, o SEIU-UHW, e prevê que residentes da Califórnia com fortunas a partir de US$ 1 bilhão sejam sujeitos a um imposto estadual.
Segundo a proposta, a alíquota aumenta de forma progressiva e linear, partindo de 0% até chegar a 5% para aqueles com US$ 1,1 bilhão ou mais, o que, na prática, faria com que quase todos os afetados pagassem 5%.
Os autores lembram que, de acordo com a lista da Revista Forbes citada na proposta, a Califórnia tem 204 bilionários e apenas um deles tem fortuna abaixo de US$ 1,1 bilhão.
O imposto seria pago uma única vez, e o pagamento poderia ser dividido ao longo de cinco anos, em parcelas de 1%, segundo o texto da iniciativa.
Quanto se espera arrecadar e para onde iria o dinheiro
Os idealizadores da proposta estimam arrecadar cerca de US$ 100 bilhões ao longo de cinco anos, ou aproximadamente US$ 20 bilhões por ano, de 2027 a 2031.
Na divisão proposta, 90% da receita seria investida em saúde, e o restante seria direcionado a assistência alimentar e educação, com o objetivo de mitigar cortes federais que afetariam serviços públicos.
Reação no Vale do Silício e exemplos de saída
O anúncio provocou reações imediatas entre bilionários e investidores do setor de tecnologia. Alguns anunciaram mudanças de endereço ou abertura de escritórios em outros Estados.
David Sacks disse que mudou-se para Austin, no Texas, e Peter Thiel anunciou um escritório em Miami, na Flórida. Houveram também relatos de que Sergey Brin e Larry Page transferiram ativos para fora da Califórnia antes do Natal.
Críticos temem que a taxação tributaria ativos e participação acionária em vez de renda, podendo forçar vendas de ações e impactar startups, argumento que ganhou força em postagens e doações a campanhas contra a medida.
Peter Thiel já doou US$ 3 milhões para uma campanha contrária, segundo a imprensa americana citada na apuração.
Argumentos dos apoiadores e das autoridades técnicas
Os autores da proposta, incluindo professores de direito, defendem que o imposto busca corrigir desequilíbrios no sistema tributário, porque grande parte da riqueza dos bilionários está em ativos que não são tributados até serem vendidos.
Em artigo conjunto, os autores afirmam que, “incluindo todos os impostos em todos os níveis de governo, bilionários pagaram 24% de sua verdadeira renda econômica em impostos nos anos de 2018 a 2020, enquanto a média nacional dos EUA foi de 30%”.
O professor Brian Galle diz que “Novas receitas são necessárias para atenuar o impacto desses danos” e que “Economistas projetam que a Califórnia perderá cerca de US$ 100 bilhões nos próximos cinco anos [em cortes à saúde]”.
Galle também observa que, sobre ameaças de saída, “Minha opinião é a de que falar é fácil” e lembra que, em outras ocasiões, expectativas sobre êxodos massivos não se confirmaram.
Outro dos arquitetos da proposta, Darien Shanske, afirma que o imposto visa tributar riqueza “independentemente de ter sido realizada como renda ou não”, porque o sistema atual não captura adequadamente ganhos acumulados em ativos.
Caminho para a votação, resistência política e possíveis recursos
Para que a medida vá às urnas, o SEIU-UHW precisa reunir 875 mil assinaturas de eleitores da Califórnia. O sindicato iniciou a coleta, mas já enfrenta oposição aberta do governador Gavin Newsom.
Newsom prometeu lutar para impedir a inclusão da proposta nas cédulas, argumentando que o imposto poderia inibir a inovação e tornar o Estado menos atraente para empresas e startups.
Mesmo que entre nas cédulas em novembro, analistas esperam campanhas intensas dos dois lados e também ações na Justiça, caso a proposta seja aprovada e passe a ser aplicada sobre fortunas avaliadas em 31 de dezembro de 2026.
Autoridades técnicas da Assembleia Legislativa e do Departamento de Finanças estimam que o imposto geraria dezenas de bilhões em receitas extraordinárias, mas também projetam perdas por eventuais saídas de contribuintes, ainda que avaliem que essas perdas seriam menores que a arrecadação esperada.
O debate na Califórnia reflete tensões mais amplas sobre desigualdade e tributação dos mais ricos, e deve ganhar importância crescente ao longo de 2026, ano eleitoral nos Estados Unidos.