Como Trump usa o petróleo para pressionar Cuba: ordem de tarifas a fornecedores, risco humanitário, estoques por dias e o papel do México, Díaz-Canel e Sheinbaum

Ordem executiva, ameaças de tarifas e o impacto imediato no abastecimento de energia da ilha

O presidente dos EUA, Donald Trump, assinou uma ordem executiva que declara estado de emergência nacional em relação a Cuba, e ameaça impor tarifas adicionais a países que forneçam petróleo para Cuba, como forma de pressão política.

A medida aumenta o risco de paralisação no fornecimento de combustível, e pode agravar apagões e falta de serviços essenciais na ilha já afetada por escassez energética crônica.

Nas próximas seções explicamos, em quatro pontos, como essa política pode levar a uma crise humanitária e econômico-social em Cuba, quais dados e citações sustentam essa avaliação e qual é o papel do México nessa equação, conforme informação divulgada pelo g1.

Ordem executiva de Trump

A ordem executiva declara estado de emergência nacional, argumentando que "a situação em relação a Cuba constitui uma ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional e à política externa dos Estados Unidos", e visa dissuadir países terceiros de vender petróleo à ilha por meio da ameaça de tarifas adicionais.

O documento acusa o governo cubano de "desestabilizar a região" e de se aliar a adversários dos EUA, como Rússia, China e Irã, e a "grupos terroristas", segundo a justificativa oficial citada na medida.

Trump afirmou, em público, que "Não haverá mais petróleo nem dinheiro para Cuba", e que "a ilha não conseguirá sobreviver", mensagens que intensificam a pressão diplomática e econômica sobre o governo de Miguel Díaz-Canel.

Crise do petróleo em Cuba

Cuba depende fortemente de importações, e especialistas estimam que o país necessita de cerca de 110 mil barris de petróleo por dia e produz aproximadamente 40 mil, o que o torna altamente dependente do fornecimento externo.

Dados da empresa belga Kpler, publicados pelo Financial Times, apontam que "Cuba tem petróleo suficiente para apenas mais 15 a 20 dias", uma medida que expõe a vulnerabilidade imediata do sistema elétrico e do transporte.

No início de 2026, segundo a Kpler, Cuba recebeu apenas um carregamento, do México, de 84 mil barris de petróleo, o que equivale a menos de 3.000 barris por dia no agregado do período, um volume insuficiente diante da demanda.

A interrupção das remessas da Venezuela após a intervenção dos EUA reduziu fonte histórica de combustível, e a intenção declarada na ordem executiva é também evitar que o México substitua a Venezuela como principal fornecedor.

O papel do México

Desde que Claudia Sheinbaum assumiu a presidência do México, as exportações de petróleo para Cuba aumentaram, chegando a cerca de 12 mil barris por dia ao longo de 2025, segundo dados da Kpler e do Banco do México.

A presidente mexicana tem justificado os embarques por razões humanitárias, para evitar a interrupção do funcionamento de hospitais e serviços essenciais, e afirmou que impor tarifas aos países que fornecem petróleo para Cuba "pode desencadear uma crise humanitária de grandes proporções".

Sheinbaum também reconheceu o risco de retaliação e ordenou que o chanceler Juan Ramón de la Fuente entre em contato com os EUA para entender o alcance da ordem, enquanto a estatal Pemex decide sobre embarques futuros.

Uma economia à beira do colapso

Os efeitos da falta de combustível já são visíveis em Cuba, com apagões que duram horas por dia, longas filas por gasolina, transporte comprometido e serviços públicos parciais.

O economista Omar Everleny afirmou à BBC Mundo que "Em muitas partes do país, os apagões duram pelo menos 20 horas por dia. Isso significa que eles só têm eletricidade por quatro horas, e essa é uma situação difícil", um retrato da deterioração cotidiana.

O governo cubano alerta que o "bloqueio total do fornecimento de combustível" pode submeter a população "a condições de vida extremas", e o presidente Miguel Díaz-Canel classificou a medida dos EUA como tentativa de estrangular a economia, chamando a ação de "fascista, criminosa e genocida".

Além da energia, a ilha enfrenta recessão prolongada, produção industrial em queda, agricultura paralisada por falta de fertilizantes e combustível, e escassez de medicamentos em meio a surtos de doenças tropicais, uma combinação que aumenta o risco de uma crise humanitária ampla caso o fluxo de petróleo para Cuba seja interrompido.