Correios aumentam receitas com encomendas e mensagens até setembro, acumulam prejuízo de R$ 6 bilhões e anunciam PDV, venda de imóveis e busca de R$ 8 bilhões
Mesmo com alta em vendas de encomendas e mensagens, queda nas postagens internacionais e o programa Remessa Conforme pressionam a receita, e a estatal anuncia medidas para tentar voltar ao lucro
Os Correios voltaram a registrar crescimento nas receitas de seus principais produtos, mas seguem em crise financeira profunda, com prejuízo acumulado e necessidade de captação adicional de recursos.
Segundo as demonstrações financeiras do 3º trimestre, com posição em 30 de setembro, a empresa reportou aumento em produtos como encomendas e mensagens, enquanto perdas em postagens internacionais reduziram o total arrecadado.
Conforme informação divulgada pelo g1, a estatal apresentou um plano de reestruturação e admitiu a eventual necessidade de mais R$ 8 bilhões para manter operações em 2026.
Receitas por produto e números do 3º trimestre
Os dados oficiais mostram que as receitas com encomendas alcançaram R$ 7,2 bilhões, e as de mensagens somaram R$ 3,6 bilhões no acumulado até setembro de 2025.
Ao mesmo tempo, as postagens internacionais, que antes respondiam por mais de 20% da receita, registraram queda e ficaram em R$ 1,1 bilhão, quase R$ 2 bilhões a menos que em 2024.
Entre 2023 e 2025, o maior aumento percentual foi em produtos classificados como “outros”, que incluem logística, marketing e venda de chip, com alta de 13,8%, R$ 117 milhões, mas que representam apenas 7,5% da receita total.
As encomendas tiveram aumento de R$ 107 milhões, e as mensagens apontaram alta de 1,7% (R$ 58 milhões), ganhos importantes, porém insuficientes para reverter a queda geral da arrecadação.
Queda total da receita e impacto do programa Remessa Conforme
A despeito das altas pontuais, a receita total dos Correios caiu fortemente em função do programa “Remessa Conforme”, criado pelo Ministério da Fazenda em 2023.
Com a nova legislação e a cobrança do imposto de importação, houve uma redução de R$ 2,2 bilhões entre o acumulado até setembro de 2023 e 2025, o que representa 66% do que havia sido arrecadado no ano da implantação do programa.
Os Correios também perderam participação no mercado de encomendas, saindo de 51% no primeiro ano do governo Bolsonaro para 22% atualmente, segundo levantamento apresentado pela empresa.
Sobre a capacidade do modelo atual de sustentar a universalização do serviço postal, o presidente da estatal afirmou o seguinte, em declaração divulgada pela companhia, “O monopólio de cartas em centros urbanos ou em locais que geravam rentabilidade passou a não ser suficiente para financiar as comunicações físicas que estão ligadas a universalização do serviço postal em locais remotos ou locais que são originalmente deficitários”.
Plano de reestruturação, cortes e metas financeiras
Para tentar reverter 12 trimestres consecutivos de prejuízos, os Correios apresentaram um plano que prevê cortes e medidas para reduzir custos e recuperar resultados em 2026, com retorno ao lucro previsto para 2027.
As ações propostas incluem corte de R$ 2 bilhões em gastos com pessoal, venda de imóveis, fechamento de mil agências, e um Programa de Demissão Voluntária que espera reduzir em até 15 mil o total de funcionários, o que representaria uma queda de 18% na folha de pagamentos.
O plano ainda prevê redução de R$ 2,1 bilhões nos custos com pessoal, venda de R$ 1,5 bilhão em imóveis não operacionais, o fechamento de mil pontos de venda deficitários, e reformulação do plano de saúde para reduzir custo em R$ 500 milhões anuais.
Busca por recursos, empréstimos e projeções
Em novembro, a estatal divulgou que acumulou um prejuízo de R$ 6 bilhões no 3º trimestre de 2025, ante um prejuízo de R$ 2,1 bilhões no mesmo período de 2024.
Os Correios contrataram um empréstimo de R$ 12 bilhões junto a instituições financeiras para quitar dívidas e aliviar o caixa, depois que a ideia inicial de tomar R$ 20 bilhões não foi autorizada pelo Tesouro Nacional devido às taxas oferecidas.
A direção da empresa afirmou que ainda buscará mais R$ 8 bilhões para manutenção das operações, por meio de aportes do Tesouro ou novo empréstimo, e que avalia a melhor forma de captação.
A expectativa da companhia é alcançar receita de R$ 21 bilhões em 2027. Em 2024, a receita foi de R$ 18,9 bilhões, contra R$ 19,2 bilhões em 2023 e R$ 19,8 bilhões em 2022.
Os Correios também planejam investir R$ 4,4 bilhões entre 2027 e 2030, por meio de empréstimo junto ao Novo Banco de Desenvolvimento do Brics, presidido por Dilma Rousseff, com destinação para automação de centros, renovação e descarbonização da frota, modernização de TI e redesenho da malha logística.
O cenário exposto pela empresa mistura sinais de recuperação em produtos-chave, perdas estruturais causadas por mudanças regulatórias, e um plano ambicioso de reestruturação que dependerá de corte de custos e captação de recursos para se concretizar.