Correios aumentam receitas de encomendas e mensagens, mas acumulam prejuízo de R$ 6 bilhões, perdem espaço no mercado e planejam corte de 15 mil funcionários
Receitas com encomendas e mensagens sobem, postagens internacionais caem quase R$ 2 bilhões, e estatal busca R$ 8 bilhões, empréstimos e reestruturação para voltar à lucratividade
Os Correios registraram aumentos em vendas de produtos como encomendas e mensagens, mesmo enquanto acumulam trimestres seguidos de prejuízo.
O balanço do 3º trimestre mostra movimento heterogêneo entre linhas de receita, com ganhos em alguns produtos e perdas em outros, especialmente no internacional.
As medidas anunciadas apontam para cortes, venda de imóveis e captações de recursos para tentar reverter o quadro financeiro, conforme informação divulgada pelo g1.
Receitas, números e onde cresceu
De acordo com as demonstrações financeiras do 3º trimestre, que trazem a posição da empresa em 30 de setembro, os Correios registraram receita de R$ 7,2 bilhões com encomendas e R$ 3,6 bilhões com mensagens.
Entre os produtos comercializados, o maior aumento entre 2023 e 2025 ficou com a categoria classificada como outros, que inclui logística, marketing, malote, conveniência e venda de chip, com alta de 13,8%, R$ 117 milhões, embora represente apenas 7,5% do total.
As encomendas, principal produto, tiveram aumento de R$ 107 milhões, impacto de apenas 1,5% na comparação com 2023, e os serviços de mensagens subiram 1,7% (R$ 58 milhões).
Queda nas postagens internacionais e efeitos do programa Remessa Conforme
As postagens internacionais, que eram responsáveis por mais de 20% das receitas, registraram queda de quase R$ 2 bilhões em relação a 2024, alcançando R$ 1,1 bilhão.
A redução da receita total está associada ao programa Remessa Conforme, criado pelo Ministério da Fazenda em 2023, que passou a cobrar imposto de importação sobre compras internacionais até US$ 50, e liberou outras empresas de transporte para fazer a distribuição das encomendas no Brasil.
Segundo as demonstrações financeiras, houve uma redução de R$ 2,2 bilhões entre o acumulado até setembro de 2023 e 2025, o que representa 66% do que havia sido arrecadado no ano da implantação do programa.
Perda de mercado e avaliação da direção
Um levantamento dos Correios apresentado em coletiva mostra que a participação da estatal no mercado de encomendas caiu de 51% em 2019 para 22% atualmente.
O presidente da empresa, Emmanoel Rondon, afirmou, “O monopólio de cartas em centros urbanos ou em locais que geravam rentabilidade passou a não ser suficiente para financiar as comunicações físicas que estão ligadas a universalização do serviço postal em locais remotos ou locais que são originalmente deficitários”.
Documentos acessados pelo Jornal Nacional apontam que a direção dos Correios foi alertada há dois anos sobre risco de falta de caixa.
Plano de reestruturação, cortes e captações
Em novembro, a empresa anunciou o resultado do 3º trimestre de 2025, onde apresentou um prejuízo de R$ 6 bilhões, contra um prejuízo de R$ 2,1 bilhões no mesmo período de 2024.
Para reverter os 12 trimestres seguidos de prejuízos, o plano prevê cortes de custos e captações, incluindo redução de R$ 2 bilhões em gastos com pessoal, venda de R$ 1,5 bilhão em imóveis não operacionais, fechamento de mil agências e reformulação do plano de saúde para reduzir R$ 500 milhões por ano.
A companhia vai implementar um Programa de Demissão Voluntária, com expectativa de reduzir 15 mil funcionários em até 2 anos, o que equivaleria a cerca de 18% da folha.
Os Correios afirmaram que ainda vão buscar mais R$ 8 bilhões para manter operações, via aportes do Tesouro Nacional ou novo empréstimo. Na semana anterior, a estatal contratou um empréstimo de R$ 12 bilhões junto a instituições financeiras, para quitar dívidas e aliviar o caixa.
Segundo Rondon, a captação inicial prevista no plano era de R$ 20 bilhões, oferta que não foi aceita em função da taxa de juros proposta, e a empresa avaliou ofertas mais altas antes de optar pelo empréstimo fechado.
Metas de receita e investimentos
A expectativa é elevar a receita para R$ 21 bilhões em 2027, ante receita total de R$ 18,9 bilhões em 2024, R$ 19,2 bilhões em 2023 e R$ 19,8 bilhões em 2022.
Os Correios pretendem também captar recursos no Novo Banco de Desenvolvimento do Brics para um programa de investimento de R$ 4,4 bilhões entre 2027 e 2030, com foco em automação de centros, renovação e descarbonização da frota, modernização de TI e redesenho da malha logística.
O desafio da estatal é combinar aumento de receitas e cortes estruturais para recuperar a saúde financeira, enquanto lida com a perda de mercado no segmento de encomendas e o impacto das mudanças na legislação de importação.