Acompanhantes e auxiliares de enfermagem combinam serviços por aplicativos e indicação, ganham renda extra, mas enfrentam informalidade, falta de sindicato e maior procura
Auxiliares de enfermagem e cuidadores de idosos têm ampliado a renda ajudando pacientes jovens e idosos a agendar exames, buscar remédios e acompanhar consultas médicas, em trabalhos combinados por aplicativos e de forma informal.
Profissionais relatam atender desde consultas de rotina até internações longas e situações complexas, cobrando por diária e recebendo indicações de clientes satisfeitos.
O modelo gera oportunidade de renda extra, mas também expõe riscos trabalhistas e de formação técnica em um contexto de envelhecimento acelerado no Brasil,
conforme informação divulgada pela BBC News Brasil.
Como funciona o serviço e o que os profissionais fazem
Com formação no cuidado de idosos, muitos profissionais dizem que não é necessário ter curso na área para atuar como acompanhante de saúde, e que o próprio anúncio na plataforma deixa claro o que pode ou não ser feito.
Girlaine, que atua como acompanhante, conta que já acompanhou pacientes internados por longos períodos, lembrando que, “Já fiquei mais de mês em uma UTI, próximo da finitude do paciente“.
Edineusa Matos, auxiliar de enfermagem, trabalha em um turno fixo e aproveita o período de descanso para aceitar diárias, e relata atendimentos variados, como levar mãe e filho autista ao médico mesmo não sendo motorista habitual.
Ela conta ainda ter retirado remédios de alto custo em posto público e auxiliado pacientes com bolsa de nefrostomia, e hoje acompanha um paciente idoso em hemodiálise aos finais de semana.
Quanto se ganha e exemplos reais
Edineusa diz que ganha R$ 2,6 mil por mês como auxiliar de enfermagem, e que a renda como acompanhante, em alguns meses, supera o rendimento do emprego formal.
Ela cobra por diária, “O mínimo é R$ 130 o dia, dependendo do procedimento. Quando há um esforço maior do meu trabalho, pode chegar a R$ 260“, e usou a renda extra para financiar a compra de um apartamento.
Outra profissional relatou ter aumentado a renda em 35% ao atuar como acompanhante de saúde.
Riscos da informalidade e quadro legal
O trabalho de cuidador tradicional consta na Classificação Brasileira de Ocupações como “cuidador de idosos” e “cuidador em saúde”, o que permite contratação com carteira assinada e funções como acompanhar em consultas, auxiliar em exercícios leves e administrar medicamentos por via oral quando prescritos por médico.
No mercado, é comum ser exigido curso de cuidador de idosos com carga mínima de 360 horas, mas a categoria não tem um sindicato nacional unificado, apenas entidades regionais e sindicatos próximos.
Uma lei que regulamenta especificamente a profissão de cuidador de idosos tramita na Câmara dos Deputados.
Para a advogada trabalhista Patrícia Schüler Fava, serviços esporádicos se enquadram como prestação eventual, sem vínculo empregatício, com pagamento por diária, mas, segundo ela, “Pela legislação, comparecer à residência pelo menos três vezes por semana, mesmo que por poucas horas, já caracteriza a relação como trabalho doméstico“.
Por que a demanda cresce e os desafios do país
A maior longevidade e a queda da fecundidade explicam parte do aumento da procura por cuidadores, segundo especialistas. Márcio Minamiguchi, demógrafo do IBGE, afirma que a geração de cerca de 80 anos já demanda mais cuidado por terem menos filhos e redes familiares reduzidas.
A médica Roberta França destaca a velocidade do envelhecimento, e observa que “Há 30 ou 40 anos, era comum ver babás em pracinhas, mas era raro encontrar cuidadores de idosos. Hoje, em 2025, acontece o contrário“, defendendo profissionalização e maior formação técnica.
A antropóloga Valquíria Renk lembra que muitos brasileiros não têm condição financeira para contratar cuidadores, e que o cuidado acaba recaindo sobre familiares, geralmente mulheres, sem remuneração, enquanto famílias com mais recursos montam equipes multidisciplinares para garantir terapias e acompanhamento médico.
A Política Nacional do Cuidado, sancionada no final de 2024, reconhece o cuidado como direito universal e busca distribuir responsabilidades entre Estado, famílias, sociedade e setor privado, mas especialistas alertam que falta implementação prática, regulamentação e orçamento.
O crescimento da demanda, aliado à oferta informal por aplicativos e à ausência de estrutura profissional unificada, aponta para um mercado em expansão, porém repleto de desafios legais, de formação e de proteção social.