Crise política na França após aprovação do acordo UE-Mercosul, RN e LFI apresentam moções contra Lecornu e aumentam pressão sobre Macron

Governo de Macron vive tensão, com a oposição usando o acordo UE-Mercosul para tentar derrubar o primeiro-ministro Sébastien Lecornu, enquanto agricultores e partidos reagem

O anúncio da aprovação provisória do acordo UE-Mercosul desencadeou uma nova crise política na França, com a oposição apresentando moções de desconfiança contra o primeiro-ministro Sébastien Lecornu.

Os partidos de extrema esquerda e de extrema direita reagiram rapidamente, mas analistas afirmam que é pouco provável que reúnam votos suficientes para derrubar o governo.

Além do confronto parlamentar, as decisões em Bruxelas reacenderam a mobilização dos agricultores e colocaram em destaque o debate sobre comércio e soberania agrícola.

conforme informação divulgada pelo g1

Motivações das moções e resposta dos partidos

A França Insubmissa, LFI, apresentou uma moção de desconfiança, e o Reunião Nacional, RN, liderado por Marine Le Pen, também anunciou ação similar contra o governo.

O presidente do RN, Jordan Bardella, afirmou que o voto de Macron contra o acordo foi mera postura, equivalente a “uma traição aos agricultores franceses”.

Mathilde Panot, do LFI, escreveu no X que a França foi “humilhada” por Bruxelas e no cenário mundial, e afirmou, “Lecornu e Macron devem sair”.

Do lado do governo, o primeiro-ministro reagiu que as moções davam um sinal negativo ao exterior num momento em que a França deve convencer outros Estados-membros e que elas atrasavam negociações orçamentárias.

Em publicação no X, Lecornu disse, “Apresentar uma moção de censura neste contexto… é optar por enfraquecer a voz da França em vez de demonstrar unidade nacional em defesa da nossa agricultura”.

Por que a moção tem pouca chance de sucesso

Mesmo com o barulho político, especialistas consideram improvável a queda do governo. “As moções têm pouca chance de serem aprovadas”, disse Stewart Chau, analista do Verian Group, à Reuters.

Chau acrescentou que, apesar disso, a assinatura do acordo poderia fortalecer o RN nas áreas rurais, “Mas essa assinatura pode dar um impulso à RN. A França rural vota maciçamente na RN, e isso poderia apoiar uma narrativa anti-UE mais explicitamente”, disse ele.

O governo está sem maioria clara no Parlamento, uma situação sem precedentes na Quinta República, o que torna a gestão do orçamento e da agenda legislativa mais complexa.

O que prevê o acordo e quais concessões a França obteve

A Comissão Europeia deu sinal verde provisório ao pacto, descrito como o maior acordo de livre comércio já negociado, resultado de mais de 25 anos de negociações.

Embora a França tenha votado contra, o tratado exige apenas maioria qualificada entre Estados-membros para avançar, e a França juntou-se à Polónia, Hungria, Irlanda e Áustria na votação contra, sem alcançar o bloqueio.

Bruxelas concedeu proteções e garantias à França para atenuar o impacto sobre o setor agrícola, mas produtorestêxteis como vinicultores, produtores de queijo e leite, e pecuaristas, que representam um terço dos agricultores franceses, já se mobilizaram contra o texto.

Impacto político e próximos passos

A oposição espera usar o episódio para desgastar o governo a pouco mais de um ano das eleições presidenciais de 2027, com analistas alertando que a crise pode beneficiar a RN nas zonas rurais.

Para avançar, o acordo precisa ainda da ratificação pelo Parlamento Europeu, e países como Alemanha e Espanha defendem o texto como forma de compensar perdas comerciais decorrentes de medidas dos Estados Unidos e reduzir dependência da China.

Enquanto isso, o governo francês tenta equilibrar a necessidade de proteger agricultores e de promover interesses industriais que se beneficiariam do pacto, num contexto político doméstico cada vez mais tenso.