Crise política na França após aprovação do acordo UE-Mercosul, RN e LFI apresentam moções de desconfiança contra governo de Macron e Lecornu, risco eleitoral
Governo do primeiro-ministro Sébastien Lecornu enfrenta tentativas de queda no Parlamento, apesar de baixa probabilidade de sucesso das moções, enquanto debate sobre importações e proteção aos agricultores esquenta
O acirramento do debate em torno do acordo UE-Mercosul levou partidos de oposição na França a apresentar moções de desconfiança contra o primeiro-ministro Sébastien Lecornu, aliado do presidente Emmanuel Macron.
As iniciativas vieram depois de a Comissão Europeia dar sinal verde provisório a um tratado que a União chama de o maior acordo de livre comércio de sempre, um processo que, segundo relatos, levou mais de 25 anos a ser elaborado.
A oposição afirma que o acordo abrirá o mercado a alimentos mais baratos e prejudicará produtores nacionais, sobretudo pecuaristas, que, conforme a cobertura, representam um terço dos agricultores franceses.
conforme informação divulgada pelo g1
Quem apresentou as moções e por que motivo
Na manhã de sexta-feira, o partido de extrema esquerda França Insubmissa, LFI, apresentou uma moção de censura contra o governo, e o partido de extrema direita Reunião Nacional, RN, também declarou que apresentaria sua própria moção.
A RN, liderada por Marine Le Pen, e a LFI usam a aprovação do acordo UE-Mercosul como argumento para atacar Macron e seu governo, afirmando risco para a produção agrícola francesa e para o emprego rural.
Chance de sucesso e avaliação de analistas
Analistas destacam que é improvável que as moções reúnam votos suficientes no Parlamento para derrubar o primeiro-ministro Sébastien Lecornu. Stewart Chau, analista do Verian Group, disse à Reuters, “As moções têm pouca chance de serem aprovadas”.
Mesmo sem perspectiva real de queda imediata, a crise expõe a fragilidade do governo Macron, que governa sem maioria na Assembleia, e pode influenciar a narrativa política até a eleição presidencial de 2027.
Reações públicas e declarações diretas
O presidente do RN, Jordan Bardella, acusou Macron de postura enganosa, afirmando que o voto contra o acordo foi mera aparência, equivalente a “uma traição aos agricultores franceses”.
Mathilde Panot, da LFI, escreveu no X que a França foi “humilhada” por Bruxelas, e que “Lecornu e Macron devem sair”.
Por sua vez, o primeiro-ministro Lecornu afirmou que as moções de desconfiança enviaram um sinal negativo ao exterior e que, no momento, apresentar uma moção seria escolher “enfraquecer a voz da França em vez de demonstrar unidade nacional em defesa da nossa agricultura”, segundo suas declarações publicadas no X.
Impacto prático do acordo e próximos passos
A França votou contra o acordo do Mercosul, mas o tratado exige apenas o apoio de maioria qualificada entre os Estados-membros da UE para seguir adiante com a assinatura pela Comissão Europeia e o bloco sul-americano.
Na votação, a França juntou-se à Polónia, Hungria, Irlanda e Áustria no voto contra, mas não conseguiu formar uma minoria de bloqueio, abrindo caminho para que o acordo avance e seja, depois, submetido ao Parlamento Europeu para ratificação.
Defensores do pacto, incluindo a Comissão Europeia e países como Alemanha e Espanha, dizem que o texto ajudará a compensar perdas comerciais e a reduzir dependência estratégica, enquanto opositores, sobretudo do setor agrícola francês, alertam para a pressão sobre preços e concorrência.
Embora a assinatura provisória tenha provocado tensões internas e protestos de agricultores, o governo afirma ter obtido concessões de Bruxelas para mitigar o impacto sobre a agricultura, mas a mobilização dos pecuaristas e a repercussão política seguem alimentando a crise.
O desfecho dependerá dos próximos passos no Parlamento francês, da resposta dos movimentos sociais no campo, e da tramitação do acordo no Parlamento Europeu, fatores que também podem repercutir na corrida eleitoral de 2027.