Cuba enfrenta pior racionamento de combustível em décadas, risco de ‘combustível zero’, cortes de energia e medidas dos EUA que limitam chegada de petróleo

Cuba entra em um racionamento de combustível sem precedentes, com cortes de energia, falta de transporte e medidas externas que complicam a chegada de petróleo, enquanto o governo ativa plano de emergência

As ruas ainda mostram cenas de rotina, mas muitas famílias já se preparam para uma escalada da crise, mudando hábitos de cozinha e acumulando água e lanternas.

O governo anunciou medidas para priorizar serviços essenciais e reduzir o uso de combustível na economia, em um plano que remete ao histórico “Período Especial” dos anos 1990.

Conforme informação divulgada pelo g1.

Causas, medidas oficiais e contexto internacional

O governo cubano atribui a crise atual a uma combinação de problemas crônicos de geração de eletricidade, usinas termoelétricas obsoletas e falta de divisas para importar combustível, e a medidas externas que dificultaram suprimentos, incluindo ações dos Estados Unidos.

Após a captura do então presidente venezuelano Nicolás Maduro em Caracas, no dia 3 de janeiro, o governo dos Estados Unidos publicou medidas para dificultar o acesso da ilha ao combustível, e o presidente norte-americano, Donald Trump, ameaçou impor tarifas de importação aos países que enviarem petróleo para Cuba, segundo reportagem citada.

Em meio a essa pressão, o México despachou ajuda, e “Na quinta-feira (12), Cuba recebeu dois navios carregados com pouco mais de 800 toneladas de suprimentos alimentares enviados pelo governo mexicano como ajuda humanitária para a população civil”, e, conforme o texto, “Mais 1.500 toneladas de alimentos serão enviadas em carregamentos futuros”. A origem dos navios foi o porto de Veracruz, de onde “os dois navios partiram do porto de Veracruz em 8 de fevereiro”.

O presidente Miguel Díaz-Canel avisou ao país sobre o agravamento da situação, afirmando, “Vamos viver tempos difíceis”, e anunciou um plano extraordinário de economia de energia que inclui o racionamento da venda de combustível, priorização de serviços essenciais, estímulo ao trabalho à distância e aulas semipresenciais nas universidades.

O governo resgatou também o conceito da “opção zero”, estratégia criada nos anos 1990 para enfrentar um cenário de “zero petróleo”.

Como a vida cotidiana mudou, adaptações e memórias do passado

Muitos cubanos recorrem novamente a soluções antigas, como cozinhar com carvão e lenha, e compartilhar fogões improvisados, enquanto outros acumulam lâmpadas, ventiladores e carregadores portáteis, por exemplo, para enfrentar quedas constantes de energia.

Elizabeth Contreras, que montou uma cozinha improvisada para atender três famílias do bairro, observa que a situação traz lembranças do “Período Especial”. “Mas, agora, me parece mais grave”, disse ela, em depoimento citado pela reportagem.

Usuários descrevem o esforço diário para cozinhar com lenha e carvão. A tiktoker @darlinmedina93 explicou como é preciso se empenhar todo dia, e ressaltou, “Sei que você vai me dizer que a cozinha a lenha é muito rica […], mas não é fácil, meu amor, precisar se empenhar todo dia para cozinhar com carvão, lenha, ver sua casa cheia de fuligem e você sufocando com a fumaça”.

Relatos apontam cortes de eletricidade de até 18 horas em várias ocasiões nas últimas semanas, e imagens mostraram avenidas importantes, como a Avenida del Malecón, mais vazias do que o habitual. Para quem depende de transporte público ou de deslocamentos mais longos, a redução de combustível dificulta até o acesso a serviços de saúde e educação.

Uma trabalhadora e estudante relatou que deixou de fazer um exame na universidade por não ter como chegar, e que o filho de nove anos “na escola, quase nunca há eletricidade” e quando volta para casa “precisa revisar e fazer tarefas no escuro”.

Impacto econômico, preços e desigualdade

A crise pesa sobre uma população com renda limitada. Segundo dados citados, o “salário mensal médio de 6.830 pesos cubanos (US$ 14 pelo câmbio informal, cerca de R$ 73)” mal cobre itens básicos, já que uma “garrafa de óleo custa cerca de US$ 2,50 (R$ 13) e uma caixa com 30 ovos, quase US$ 6 (R$ 31)”.

Esses custos elevam a pressão diária sobre famílias sem remessas do exterior ou renda extra, enquanto outras conseguem mitigar a crise graças a laços familiares fora do país ou a empregos por conta própria, o que reforça a desigualdade entre os cidadãos.

O professor Michael Bustamante, da Universidade de Miami, analisou o contexto macroeconômico e destacou que “Entre 1991 e 1994, o PIB desabou em mais de um terço”, e que “Da pandemia para cá, calcula-se uma deterioração de cerca de 11%. Não há a mesma magnitude”. Ele também afirmou que “A economia cubana nunca se recuperou totalmente do Período Especial. E, embora o colapso atual seja percentualmente menor, para muitos parece ser pior porque se parte de uma situação que, por si só, já é delicada”.

Bustamante observou ainda que as medidas dos EUA historicamente “empobreceram a população, que é muito mais prejudicada que o governo. Não serviu para negociar a gestão econômica e política da sociedade cubana”, e avaliou que Washington tem hoje “mais cartas sobre a mesa” para pressionar, sem que se saiba qual será o desfecho político e social.

Riscos, ajuda humanitária e incertezas

Além da ajuda mexicana já enviada, o texto menciona que o governo brasileiro avalia enviar carregamentos de ajuda humanitária, com remédios e alimentos, sem decisão final sobre volume ou datas. Aparece também a notícia sobre possibilidade de envio de petróleo por parte da Rússia, citada como “Rússia vai mandar petróleo para Cuba, diz jornal russo”.

Especialistas e moradores discutem se a pressão externa levará a uma crise humanitária mais profunda, ou se o governo cubano conseguirá resistir adotando medidas de racionamento e apoio a setores estratégicos. O professor avaliou a alternativa política, questionando se Washington tentaria forçar uma situação que justificasse uma intervenção, ou se Havana aguentaria até mudanças no cenário político nos Estados Unidos.

As vozes ouvidas pela reportagem mostram apreensão, adaptação e uma realidade marcada pela desigualdade, com famílias que lembram do passado e outras que se veem mais expostas agora. Nomes de entrevistados foram alterados para proteção.

Palavra-chave, racionamento de combustível, aparece em todos os setores da vida cubana, e sua evolução nas próximas semanas determinará se a ilha enfrentará apenas cortes prolongados ou um cenário de “combustível zero” com consequências humanitárias mais graves.