Cuidadores de idosos e auxiliares de enfermagem ganham renda extra por apps e diárias, cobrando de R$130 a R$260 e ampliando serviços em meio ao envelhecimento do país

Com anúncios em plataformas, profissionais acumulam turnos, ajudam a agendar exames, buscar remédios e até a levar pacientes com fobia de dirigir, e a informalidade cresce

A oferta de trabalho por aplicativo e por diária tem transformado a renda de quem atua no cuidado de pessoas, principalmente cuidadores de idosos e auxiliares de enfermagem.

Profissionais combinam tarefas pela internet, atendem desde consultas e exames até buscar remédios de alto custo, e em muitos casos trabalham de forma informal.

Os relatos e dados reunidos mostram ganhos extras, riscos trabalhistas e a relação com o envelhecimento da população, conforme informação divulgada pela BBC News Brasil.

Como funcionam os serviços e quem são os profissionais

Muitos anúncios em plataformas deixam claro o que o profissional pode ou não fazer, e a contratação ocorre por diária, com tarefas combinadas entre cliente e cuidador.

Com formação no cuidado de idosos, Girlaine afirma que não é necessário ter um curso específico para atuar como acompanhante, e que o serviço pode incluir a permanência em hospitais por longos períodos, por exemplo, “Já fiquei mais de mês em uma UTI, próximo da finitude do paciente”.

O mercado recebe ofertas de profissionais com diferentes formações, e a atividade aparece tanto como complemento de renda quanto como trabalho principal.

Ganhos, exemplos e a rotina de quem faz o serviço

A auxiliar de enfermagem Edineusa Matos, 40 anos, resume a lógica, “Como trabalho como auxiliar de enfermagem em um turno de 12 horas e descanso por 36 horas, muitas vezes consigo fazer esses trabalhos à parte”.

Edineusa conta que hoje tem uma avaliação cinco estrelas na plataforma, e que clientes chegam também por indicação. Ela já atuou em tarefas variadas, e lembra um caso sensível, ‘Atendi cliente com fobia de dirigir’, quando levou uma mãe com medo de dirigir ao médico com o filho autista.

Sobre remuneração, a profissional detalha os valores, “O mínimo é R$ 130 o dia, dependendo do procedimento. Quando há um esforço maior do meu trabalho, pode chegar a R$ 260”. E acrescenta que recebe R$ 2,6 mil por mês no emprego fixo, e que a atividade paralela já aumentou sua renda em alguns meses, chegando a superar o salário formal.

Riscos da informalidade e o que diz a legislação

Há previsão formal para a ocupação na Classificação Brasileira de Ocupações, com as funções listadas como “cuidador de idosos” e “cuidador em saúde”, o que permite contratação com carteira assinada.

O papel legal inclui acompanhar em consultas e exames, auxiliar em exercícios leves e administrar medicamentos por via oral, desde que prescritos por médico, assim como observar sintomas e acionar socorro sem diagnosticar ou receitar.

No mercado, costuma-se exigir curso de cuidador com carga mínima de 360 horas, mas a categoria ainda não tem um sindicato nacional unificado, e uma lei que regulamenta a profissão tramita na Câmara dos Deputados.

A advogada trabalhista Patrícia Schüler Fava explica que serviços esporádicos se enquadram como prestação eventual, sem vínculo empregatício, mas alerta para a transformação em vínculo quando a presença vira rotina, “Pela legislação, comparecer à residência pelo menos três vezes por semana, mesmo que por poucas horas, já caracteriza a relação como trabalho doméstico”, diz Fava.

Por que a demanda cresce e o desafio do cuidado no Brasil

Especialistas relacionam a expansão dos serviços à maior longevidade e à queda da fecundidade, que reduziram as redes de apoio familiar e aumentaram a procura por profissionais e instituições.

Roberta França, especialista em longevidade, sintetiza a mudança geracional, “Há 30 ou 40 anos, era comum ver babás em pracinhas, mas era raro encontrar cuidadores de idosos. Hoje, em 2025, acontece o contrário”.

O demógrafo Márcio Minamiguchi, do IBGE, observa que a geração com cerca de 80 anos demanda mais cuidados por ter menos filhos, pressionando a oferta de mão de obra e expandindo a procura por cuidadores de idosos e serviços privados.

A Política Nacional do Cuidado, sancionada no final de 2024, busca reconhecer o cuidado como responsabilidade compartilhada e ampliar qualificações, mas especialistas apontam que faltam regulamentação, orçamento e implementação para reduzir a lacuna entre lei e prática.

O resultado imediato é um mercado em crescimento, com oportunidades de renda extra, e ao mesmo tempo, desafios de formalização, proteção trabalhista e garantia de qualidade no cuidado de dependentes.