Doador de sêmen dinamarquês transmite mutação genética rara ligada a câncer a 197 crianças na Europa

Reprodução assistida em xeque: mutação genética ligada a câncer se espalha por 197 crianças europeias através de doador de sêmen

Um escândalo abala o mundo da reprodução assistida na Europa, onde o sêmen de um único doador dinamarquês, identificado como “Doador 7069” ou “Kjeld”, foi utilizado em 67 clínicas espalhadas por 14 países. A investigação conduzida pela European Broadcasting Union (EBU) revelou que pelo menos 197 crianças foram concebidas com este material genético, ultrapassando limites legais e colocando essas famílias em risco de uma grave mutação associada ao câncer.

O doador, que iniciou suas doações em 2005, passou pelos exames exigidos na época. Contudo, uma mutação inédita no gene TP53, responsável por aumentar drasticamente o risco de desenvolver tumores agressivos, estava presente em até 20% de suas células reprodutivas. Essa alteração genética, conhecida como síndrome de Li-Fraumeni (LFS), não era detectável pelos testes convencionais, pois estava restrita aos gametas e o doador não apresentava sinais clínicos da síndrome.

A síndrome de Li-Fraumeni é uma condição hereditária rara que afeta a capacidade do corpo de reparar danos no DNA, elevando o risco de múltiplos tipos de câncer, incluindo sarcomas, tumores cerebrais, leucemias e câncer de mama precoce, muitas vezes diagnosticados na infância. A investigação expôs falhas graves nos sistemas de controle e na comunicação entre bancos de sêmen e clínicas, permitindo que o material de um único doador fosse distribuído em escala continental por quase duas décadas.

Conforme informação divulgada pelo G1, a European Sperm Bank (ESB), responsável pela comercialização do sêmen, admitiu que os limites foram ultrapassados e atribuiu o problema a falhas no envio de informações pelas clínicas, sistemas de controle insuficientes e à circulação internacional de pacientes, o chamado turismo reprodutivo.

Distribuição em massa e falhas de controle expõem centenas de crianças

Os documentos obtidos pela EBU revelam a magnitude da distribuição do material genético do “Doador 7069”. Na Dinamarca, foram registradas 99 crianças, o dobro do limite nacional. Na Bélgica, o número chegou a 53 nascimentos, quase dez vezes o teto legal. A Espanha registrou 35 crianças, embora o país limite cada doador a seis nascidos. Outros países como Alemanha, Grécia e Suécia também confirmaram casos de crianças afetadas.

A investigação também destacou o papel do turismo reprodutivo, onde pacientes viajavam para outros países em busca de tratamentos, dificultando o rastreamento consolidado do número total de nascimentos por doador. Sem um sistema unificado de acompanhamento, as clínicas focavam apenas em seus próprios procedimentos, permitindo que a distribuição atingisse uma escala continental sem detecção por quase 20 anos.

Atraso na notificação e o impacto da mutação genética

Em novembro de 2023, após a confirmação da mutação em amostras armazenadas, a ESB bloqueou o doador e notificou as autoridades europeias. No entanto, muitas famílias demoraram a ser informadas, com algumas clínicas perdendo registros e encontrando pacientes apenas manualmente. Outros pais descobriram a ligação através de grupos informais nas redes sociais. A Autoridade Dinamarquesa de Segurança do Paciente estima que algumas famílias ainda não foram notificadas, deixando crianças potencialmente afetadas sem o acompanhamento médico adequado.

A mutação no gene TP53 compromete o mecanismo que impede a multiplicação de células defeituosas, aumentando a probabilidade de desenvolvimento de tumores. Isso resultou em diagnósticos de câncer nos primeiros anos de vida, casos de tumores múltiplos e mortes precoces associadas à síndrome de Li-Fraumeni. Equipes médicas ressaltam a importância de localizar todas as crianças afetadas para iniciar protocolos de rastreamento e aumentar as chances de detecção precoce e tratamento.

Setor de reprodução assistida sob escrutínio e a necessidade de regulação

Este caso expõe fragilidades estruturais no setor de reprodução assistida, um mercado global de bilhões de reais. A falta de uma regulação unificada na Europa, onde cada país estabelece seus próprios limites para doadores, permitiu que a situação ocorresse. Embora a União Europeia planeje novas regras para 2027, que incluem registros mais completos, ainda não haverá um teto internacional unificado para nascimentos por doador, mantendo brechas para casos semelhantes.

Pesquisadores e autoridades defendem a criação de um registro europeu único e limites globais obrigatórios para garantir a segurança e a saúde pública. Os desafios imediatos incluem localizar todas as famílias expostas, ampliar o acesso ao rastreamento oncológico para crianças e revisar a regulação do setor, que permitiu que um único doador ultrapassasse regras nacionais e internacionais por quase duas décadas sem ser detectado. A falta de integração entre bancos de sêmen, clínicas e sistemas de saúde representa um risco concreto para a saúde pública e para as gerações futuras.