quinta-feira, junho 4, 2026

El Helicoide, de centro de tortura a grande projeto de revitalização, como a conversão em complexo cultural e comercial na Venezuela acompanha a anistia geral

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Anúncio da presidente interina Delcy Rodríguez prevê transformar o edifício em centro esportivo, social, cultural e comercial, após anistia que abrange 27 anos dos governos chavistas

El Helicoide, ícone arquitetônico de Caracas, inicia uma nova fase que mistura revivescência urbana, política e a promessa de reparação simbólica.

O prédio foi projectado como shopping de luxo e virou sede de serviços de inteligência, acusado de abrigar práticas de tortura que marcaram gerações.

As mudanças foram anunciadas em meio à declaração de anistia geral e à queda de Nicolás Maduro, conforme informação divulgada pelo g1.

História do projeto e interrupção do sonho comercial

O complexo começou a ser idealizado na década de 1950, em 1956, durante a ditadura de Marcos Pérez Jiménez, como um centro comercial piramidal com passagens helicoidais, hotel cinco estrelas e heliporto.

O conceito de “shopping drive-thru”, que chegou a ser exibido no MoMA, nunca se concretizou, e a obra permaneceu abandonada por décadas antes de mudar de destino.

De ícone arquitetônico a centro de repressão

Em 1986, a polícia política, conhecida então como Disip, ocupou o prédio, que mais tarde passou a abrigar a Polícia Nacional e o Sebin, e se tornou um símbolo de medo para muitos venezuelanos.

Para familiares e ex-detentos, o nome El Helicoide é, nas palavras de Raidelis Chourio, “sinônimo de muita tristeza e de muitas torturas”.

Víctor Navarro, ex-detento e diretor da ONG Vozes da Memória, classificou o local como o “maior centro de tortura da América Latina” e relatou, “presenciei e, ao mesmo tempo, fui vítima de tortura. Colocaram uma arma na minha boca, carregada, destravada (…), batiam em mim”.

Investigações internacionais e a pressão por memória

A situação no prédio atraiu atenção internacional, com o Tribunal Penal Internacional investigando possíveis crimes contra a humanidade, e a ONU denunciando detenções arbitrárias e desaparecimentos forçados.

As autoridades venezuelanas negaram as acusações, e Nicolás Maduro chegou a descrever o local como uma “referência moral”.

Defensores de direitos humanos, como Marino Alvarado, pedem que a revitalização inclua um centro de memória, para que o horror não seja esquecido nem repetido.

Transformação anunciada e reações imediatas

A presidente interina Delcy Rodríguez confirmou a conversão em um “centro esportivo, social, cultural e comercial”, conforme anunciado pelo governo.

Após o anúncio, familiares de presos políticos se reuniram do lado de fora do centro de reclusão aos gritos de “liberdade”, reportou a AFP.

Organizações como o Foro Penal estimam que a Venezuela tem ao menos 711 presos, dezenas deles ainda mantidos no El Helicoide, informação que aumenta a urgência de uma solução que combine liberação, verdade e memória.

Perspectivas e desafios para a nova etapa

A transformação do prédio exige decisões sobre como preservar registros das violações, apoiar vítimas e integrar o local à vida urbana sem apagar o passado.

Especialistas e familiares acompanham de perto as medidas, pedindo que qualquer projeto cultural ou comercial seja acompanhado de garantias de justiça, transparência e preservação da memória.

O futuro do El Helicoide será, nas próximas etapas, um teste para a sociedade venezuelana, entre a necessidade de renovação urbana e o compromisso com a verdade sobre o que ocorreu ali nas últimas décadas.

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