El Helicoide, de ‘maior centro de tortura da América Latina’ a complexo cultural, como a anistia geral e a reforma podem transformar o símbolo de repressão em Caracas

Com a anistia geral e a queda de Nicolás Maduro, o prédio que foi sede de inteligência e centro de tortura começa uma transição anunciada para uso social, cultural e comercial

O anúncio oficial abre um capítulo novo para um edifício que marcou gerações em Caracas, entre promessas de modernidade e memórias de violência.

Familiares de presos reagiram com gritos de “liberdade” do lado de fora do centro de reclusão, enquanto ONGs e organismos internacionais pedem que a transformação preserve a lembrança das vítimas.

Conforme informação divulgada pelo g1.

Do projeto de luxo à ocupação policial

O prédio nasceu na década de 1950 como um ambicioso centro comercial, com um conceito de “shopping drive-thru” em que clientes chegariam de carro até as lojas, com hotel e heliporto.

O projeto, idealizado em 1956, nunca foi inaugurado como planejado e ficou abandonado por décadas, até que, em 1986, a polícia política, Disip, ocupou o local e o transformou em uma prisão.

Desde então, o local deixou de ser visto apenas como arquitetura, para muitos, o nome do edifício virou sinônimo de medo.

Denúncias, testemunhos e investigação internacional

Vítimas e ex-detentos relataram práticas de tortura e maus-tratos nas instalações. Para muitos venezuelanos, a palavra “Helicoide” é “sinônimo de muita tristeza e de muitas torturas”, disse Raidelis Chourio, citado em reportagens.

O diretor da ONG Vozes da Memória e ex-detento, Víctor Navarro, classificou o local como o “maior centro de tortura da América Latina”. Navarro afirmou ainda, sobre sua detenção em 2018, que “Colocaram uma arma na minha boca, carregada, destravada (…), batiam em mim”.

O Tribunal Penal Internacional, TPI, investiga possíveis crimes contra a humanidade relacionados a abusos em prisões venezuelanas, e a ONU denunciou detenções arbitrárias e desaparecimentos forçados.

O anúncio oficial e as reações

A presidente interina Delcy Rodríguez confirmou a conversão do edifício em um “centro esportivo, social, cultural e comercial”, proposta que chega junto com a declaração de anistia geral que abrange os 27 anos dos governos chavistas.

Após a notícia, familiares de presos políticos se reuniram do lado de fora do centro de reclusão aos gritos de “liberdade”, reportou a agência AFP. A reação pública mistura alívio, desconfiança e pedidos por justiça.

A ONG Foro Penal estimam que a Venezuela tenha ao menos 711 presos, dezenas deles no Helicoide, dado que reforça a urgência do debate sobre libertações e reintegração.

Transformação, memória e justiça

Defensores dos direitos humanos pedem que o espaço não seja apenas um centro de lazer, mas também um centro de memória, para que os abusos não sejam esquecidos nem repetidos.

Autoridades venezuelanas, por sua vez, criticaram investigações externas e chegaram a afirmar que o Helicoide era uma “referência moral”, ao rebater acusações internacionais, segundo reportagens anteriores.

A transição prevista para o edifício, anunciada em meio a mudanças políticas, levanta questões sobre reparação às vítimas, preservação da memória e o papel de instituições como o TPI na busca por responsabilização.

O desafio agora é transformar um símbolo de repressão num espaço de convivência, sem apagar as marcas do passado, e ao mesmo tempo garantir que a anistia e as reformas deem respostas concretas às famílias das vítimas.