El Helicoide, de ‘maior centro de tortura da América Latina’ a complexo cultural, será transformado após anistia geral, com investigação do TPI em curso
Presidente interina Delcy Rodríguez anunciou a conversão do prédio em um centro esportivo, social, cultural e comercial, enquanto vítimas, ONG e tribunais internacionais acompanham o caso
O icônico edifício El Helicoide, na região central de Caracas, inicia uma nova etapa depois do anúncio de uma anistia geral que abre caminho para sua revitalização.
A proposta é transformar o espaço em um centro de lazer e cultura, encerrando décadas em que o local foi associado a detenções e relatos de abuso.
Familiares de presos comemoraram do lado de fora do centro de reclusão, enquanto organizações de direitos humanos e instâncias internacionais mantêm atenção sobre o caso, conforme informação divulgada pelo g1
Da ambição arquitetônica ao abandono
Concebido nos anos 1950, com projeto de 1956 durante a ditadura de Marcos Pérez Jiménez, o local nasceu como ambicioso centro comercial piramidal, com hotel cinco estrelas e heliporto, idealizado como um “shopping drive-thru” que chegou a ser exibido no Museu de Arte Moderna de Nova York.
O empreendimento nunca foi inaugurado como planejado e ficou décadas sem uso até ser ocupado por forças de segurança, mudando seu destino e imagem pública.
Transformação anunciada e reação pública
A presidente interina Delcy Rodríguez confirmou a conversão do edifício em um “centro esportivo, social, cultural e comercial”, medida que ocorre em meio à anistia geral que, segundo o governo, abrange os 27 anos dos governos chavistas.
Após o anúncio, familiares de presos políticos se reuniram do lado de fora do centro de reclusão aos gritos de ‘liberdade’, segundo relatos da agência AFP, e organizações como a ONG Foro Penal estimam que a Venezuela tenha ao menos 711 presos, dezenas deles no Helicoide.
Denúncias, investigação e pedidos por centro de memória
Para muitos venezuelanos, a palavra Helicoide é “sinônimo de muita tristeza e de muitas torturas”, e ex-detentos e ativistas classificam o local como o “maior centro de tortura da América Latina”.
Víctor Navarro, ex-detento e diretor da ONG Vozes da Memória, relatou abusos sofridos no prédio, afirmando, “presenciei e, ao mesmo tempo, fui vítima de tortura. Colocaram uma arma na minha boca, carregada, destravada (…), batiam em mim”.
Denúncias apontam métodos como asfixia com sacos plásticos, espancamentos com tacos e o uso de correntes, e a situação atraiu atenção internacional, com o Tribunal Penal Internacional investigando possíveis crimes contra a humanidade, enquanto a ONU denunciou detenções arbitrárias e desaparecimentos forçados.
O que muda para detentos e famílias
O anúncio de transformação ocorre num momento de transição política, após a queda de Nicolás Maduro, e gera expectativa sobre a libertação de presos e a destinação do espaço.
As autoridades venezuelanas sempre negaram as acusações de abuso e chegaram a afirmar que o Helicoide era uma “referência moral”, posicionamento do governo que contrapõe as denúncias de vítimas e ONGs.
Defensores dos direitos humanos, como Marino Alvarado, defendem que a revitalização inclua um centro de memória, para que os horrores ali cometidos não sejam esquecidos, e para garantir reparação às vítimas, enquanto investigações e processos internacionais seguem em aberto.