Anúncio de Delcy Rodríguez prevê converter o prédio em espaço de lazer e comércio, enquanto ONG e ex-detentos pedem que El Helicoide também vire centro de memória por conta das denúncias e investigações
O icônico prédio no alto de Caracas, conhecido por décadas como local de prisão e tortura, inicia uma nova etapa marcada por uma promessa de transformação física e simbólica.
Familiares de detentos celebraram do lado de fora, enquanto organizações de direitos humanos pedem garantias para que o passado não seja apagado e para que vítimas tenham voz.
Conforme informação divulgada pelo g1, a iniciativa ocorre depois do anúncio de anistia geral e da saída de Nicolás Maduro do poder, e envolve planos para converter o local em um centro esportivo, social, cultural e comercial.
Origem, projeto e abandono
O edifício nasceu na década de 1950 como um ambicioso projeto de shopping piramidal, pensado como um centro moderno com hotéis e até heliporto, ideia que permitia aos visitantes dirigir até as lojas.
O conceito de “shopping drive-thru” chegou a ser exibido no Museu de Arte Moderna de Nova York, mas a obra nunca foi inaugurada como previsto, e o local ficou décadas incompleto e em abandono.
Transformação em prisão e relatos de tortura
Em 1986, o edifício foi ocupado pela polícia política, e mais tarde passou a abrigar órgãos de inteligência e prisões, tornando-se sinônimo de medo para muitos venezuelanos.
Para diversos ex-detentos e familiares, a menção ao local traz lembranças dolorosas. Raidelis Chourio, de 39 anos, resumiu a sensação, dizendo que a palavra “Helicoide” é, “sinônimo de muita tristeza e de muitas torturas”.
O diretor da ONG Vozes da Memória, Víctor Navarro, classifica o espaço como o “maior centro de tortura da América Latina”, e relatou ter sido vítima, afirmando, “presenciei e, ao mesmo tempo, fui vítima de tortura. Colocaram uma arma na minha boca, carregada, destravada (…), batiam em mim”, em depoimento à imprensa.
Outras denúncias relatam métodos como asfixia com sacos plásticos, espancamentos com tacos e o uso de correntes em várias partes do corpo, apontamentos que atraíram atenção internacional.
Investigações, números e cobranças por memória
O Tribunal Penal Internacional, TPI, abriu investigação sobre possíveis crimes contra a humanidade cometidos no local, enquanto a ONU já denunciou detenções arbitrárias e desaparecimentos forçados em prisões venezuelanas.
Organizações de defesa dos direitos humanos alertam para a gravidade das denúncias, e a ONG Foro Penal estima que a Venezuela tenha “ao menos 711 presos, dezenas deles no Helicoide”.
Diante disso, ativistas pedem que a reforma do complexo inclua um centro de memória, para preservar relatos das vítimas, documentar abusos e educar a população, garantindo que os crimes não sejam esquecidos nem repetidos.
O anúncio oficial e o futuro do espaço
A presidente interina Delcy Rodríguez confirmou a conversão do prédio em um “centro esportivo, social, cultural e comercial”, proposta que busca recuperar o espaço urbanístico e criar opções de lazer.
Para familiares de presos políticos, a transformação só terá significado real se vier acompanhada de medidas para libertar detidos, prestar contas sobre abusos e assegurar reparação às vítimas.
Especialistas em direitos humanos e memória histórica defendem que qualquer intervenção física inclua participação das vítimas, transparência sobre o passado e cooperação com as investigações internacionais.
Nos próximos meses, a realização das obras e o formato final do espaço irão medir se a mudança simboliza apenas uma reforma arquitetônica, ou se se tornará um reconhecimento público do sofrimento ocorrido no local.