quinta-feira, junho 4, 2026

El Helicoide, do símbolo arquitetônico ao ‘maior centro de tortura da América Latina’, como a anistia abre caminho para transformação em complexo cultural em Caracas

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Com a anistia geral anunciada, El Helicoide passará de prisão política a espaço de lazer e cultura, ao mesmo tempo em que cresce a pressão por um centro de memória para preservar as vítimas

O edifício conhecido como El Helicoide vive um momento de transição que mistura urgência política e memória histórica.

Depois de décadas ligado a denúncias de tortura e detenções arbitrárias, autoridades anunciaram sua conversão em um complexo esportivo, social, cultural e comercial.

Familiares de presos reagiram em frente ao local com gritos de liberdade, em uma cena que expressa esperança e desconfiança ao mesmo tempo, conforme informação divulgada pelo g1.

Histórico e sonho interrompido

Projetado nos anos 1950, El Helicoide nasceu como um símbolo de modernidade, pensado como um shopping piramidal onde carros poderiam chegar até as lojas, com hotel cinco estrelas e heliporto.

O projeto, idealizado em 1956 durante a ditadura de Marcos Pérez Jiménez, chegou a ser exibido no Museu de Arte Moderna de Nova York, mas nunca foi inaugurado como planejado, e a obra ficou abandonada por décadas.

Transformação em prisão e denúncias

Em 1986, a polícia política, a Disip, ocupou o prédio e mais tarde a estrutura se tornou sede de serviços de inteligência e prisão, inclusive do Sebin, com relato de práticas de tortura.

Víctor Navarro, ex-detento e diretor da ONG Vozes da Memória, classificou o local como o “maior centro de tortura da América Latina“, e narrou agressões, ameaças com arma na boca e espancamentos, segundo relatos à imprensa, citados pela AFP.

Outros relatos descrevem métodos como asfixia com sacos plásticos, espancamentos com tacos e o uso de correntes em várias partes do corpo, denúncias que ganharam atenção de organismos internacionais.

Analistas dos direitos humanos, como a ONG Foro Penal, estimam que a Venezuela tenha ao menos 711 presos, dezenas deles no Helicoide, segundo a AFP, número que alimenta pedidos de investigação e libertação.

Investigação internacional e propostas para o futuro

O caso do prédio e de outras prisões no país levou o Tribunal Penal Internacional, TPI, a investigar possíveis crimes contra a humanidade, enquanto a ONU denunciou detenções arbitrárias e desaparecimentos forçados, conforme apuração da reportagem.

O anúncio da presidente interina Delcy Rodríguez sobre a conversão do prédio em um “centro esportivo, social, cultural e comercial” surge junto à declaração de uma anistia geral que, segundo autoridades, abrange os 27 anos dos governos chavistas.

Para familiares de detentos e defensores dos direitos humanos, a transformação precisa incluir um compromisso com a memória e a verdade, e vozes como a de Marino Alvarado defendem que o espaço se torne também um centro de memória para evitar o esquecimento e a repetição dos horrores.

A política oficial nega as acusações e questiona investigações internacionais, em um debate que agora será travado entre justiça de transição, demandas por reparação e o projeto de revitalização urbana anunciado pelas autoridades.

O futuro de El Helicoide dependerá, portanto, de decisões sobre liberação de presos, investigação dos relatos de tortura e do equilíbrio entre recuperação urbana e preservação da memória daqueles que sofreram no local.

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