El Helicoide: transformação de centro de tortura para complexo cultural em Caracas após anistia geral, Delcy Rodríguez anuncia obra enquanto TPI investiga
Após décadas marcado por denúncias de tortura e detenções arbitrárias, a anistia geral anuncia nova função para El Helicoide, entre reações de familiares, ONGs e órgãos internacionais
El Helicoide começa um processo de conversão que busca apagar um passado de repressão e criar um novo polo cultural em Caracas, após o anúncio de anistia geral no país.
A decisão provoca alívio entre alguns familiares de presos políticos, e cautela entre organizações de direitos humanos, que pedem preservação da memória do que ocorreu no local.
Conforme informação divulgada pelo g1, o anúncio oficial da transformação do prédio foi feito pela presidente interina Delcy Rodríguez, e a mudança ocorre em meio a investigações internacionais sobre abusos, como as do Tribunal Penal Internacional.
Histórico e sonho interrompido
O prédio foi idealizado em 1956, durante a ditadura de Marcos Pérez Jiménez, como um símbolo da modernidade venezuelana, projetado para ser um luxuoso centro comercial piramidal com passagens helicoidais, hotel cinco-estrelas e heliporto.
O conceito de “shopping drive-thru”, que permitia aos visitantes dirigir seus carros diretamente até as lojas, chegou a ser exibido no Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA, mas a obra nunca foi inaugurada conforme o planejado, e ficou abandonada por décadas.
De ícone arquitetônico a sinônimo de terror
Em 1986, a polícia política Disip ocupou o local, que mais tarde passou a abrigar a sede de forças de segurança e o Serviço de Inteligência, transformando o edifício em centro de detenção.
Para muitos, a associação é direta, como relatou um morador citado na cobertura, ao afirmar que, para muitos venezuelanos, a palavra “Helicoide” é “sinônimo de muita tristeza e de muitas torturas”.
Ex-detentos e organizações de defesa dos direitos humanos documentaram relatos de violência, incluindo métodos como asfixia com sacos plásticos, espancamentos e uso de correntes. Víctor Navarro, ex-detento e diretor da ONG Vozes da Memória, classificou o local como o “maior centro de tortura da América Latina”.
Investigação internacional e números citados
A situação no prédio e em outras prisões venezuelanas motivou atenção de organismos internacionais. O Tribunal Penal Internacional, o TPI, investiga possíveis crimes contra a humanidade, e a ONU denunciou detenções arbitrárias e desaparecimentos forçados.
Organizações locais estimam que ainda haja centenas de presos políticos no país, com a ONG Foro Penal calculando ao menos 711 presos, dezenas deles mantidos em unidades como o Helicoide.
Transformação anunciada, reações locais e propostas de memória
A presidente interina Delcy Rodríguez confirmou a conversão do prédio em um “centro esportivo, social, cultural e comercial”, marcando a intenção oficial de reabilitar o espaço para uso público.
Após o anúncio, familiares de presos políticos se reuniram do lado de fora do centro de reclusão aos gritos de “liberdade”, reportou a agência AFP, enquanto analistas e ativistas pedem que a obra inclua um centro de memória para preservar a lembrança das violações e evitar que os fatos se repitam.
Defensores como Marino Alvarado defendem que, mais do que um complexo de lazer, o local funcione como memória ativa, garantindo relatos, provas e reconhecimento das vítimas, e contribuindo para processos de verdade e reparação.
A transição de uso de El Helicoide será acompanhada de perto por familiares, ONGs e pela comunidade internacional, enquanto permanece em aberto a coordenação entre autoridades e órgãos que investigam abusos, e a forma como será preservada a memória do passado doloroso.