El Helicoide: transformação do prédio símbolo de terror em Caracas, conversão para centro cultural, esportivo e comercial após anistia geral e queda de Maduro

Após anúncio de anistia geral, o icônico prédio em Caracas, conhecido por denúncias de tortura e investigações internacionais, será convertido em espaço cultural, esportivo e comercial

O governo provisório anunciou a conversão do imóvel em um espaço de lazer e serviços, ao mesmo tempo em que familiares de detentos exigem liberdades imediatas. A transformação visa dar uma nova função urbana ao local, que tem forte carga simbólica e histórica.

Construído na década de 1950 como um projeto ambicioso de shopping com acesso para carros, o edifício nunca funcionou como previsto, e desde 1986 passou a abrigar estruturas de segurança do Estado. A mudança foi comunicada pela presidente interina Delcy Rodríguez, em meio a uma lei de anistia geral.

O anúncio ocorre em um contexto de denúncias, investigações e pedidos por memória, enquanto órgãos internacionais, como o Tribunal Penal Internacional, analisam relatos de abuso. Para muitos venezuelanos, essa alteração representa tanto esperança quanto a necessidade de garantir registros sobre o passado.

conforme informação divulgada pelo g1

Do sonho do “shopping drive-thru” à ocupação policial

O projeto original, idealizado em 1956 durante a ditadura de Marcos Pérez Jiménez, previa um complexo piramidal com hotel, heliporto e lojas acessíveis por rampas helicoidais, conceito exibido no Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA. A estrutura foi pensada para que visitantes pudessem dirigir seus carros diretamente até as lojas, o chamado “shopping drive-thru”. No entanto, a obra permaneceu inacabada e por décadas esteve abandonada.

Período de repressão, relatos e denúncias

Em 1986, a polícia política Disip ocupou o edifício, que mais tarde passou a sediar unidades de inteligência, como o Sebin. O local tornou-se associado a prisões políticas e a relatos de tortura. Para muitos venezuelanos, a palavra ‘Helicoide’ é ‘sinônimo de muita tristeza e de muitas torturas’, frase citada por moradores e por ex-detentos.

Víctimas e ex-detentos relataram métodos brutais, incluindo asfixia com sacos plásticos, espancamentos e imobilizações com correntes. Em relato citado pela imprensa, o ex-detento e diretor da ONG Vozes da Memória, Víctor Navarro, descreveu ter sido vítima de tortura e classificou o local como o “maior centro de tortura da América Latina”. Navarro disse, referindo-se ao seu período de detenção, que “colocaram uma arma na minha boca, carregada, destravada (…), batiam em mim”.

Investigações internacionais e pedidos por um centro de memória

Organismos internacionais investigam práticas ocorridas em prisões venezuelanas. O Tribunal Penal Internacional abriu apurações sobre possíveis crimes contra a humanidade, e a ONU denunciou detenções arbitrárias e desaparecimentos forçados. As autoridades locais têm negado as acusações, e a transformação anunciada gerou debate sobre preservação da memória.

Defensores dos direitos humanos, como Marino Alvarado, têm pedido que o espaço funcione não apenas como centro cultural e esportivo, mas também como um centro de memória, para que os abusos não sejam esquecidos nem replicados. A proposta busca conciliar a reabilitação urbana com mecanismos de verdade e reparação.

Reações imediatas e a situação dos detentos

Após o anúncio, familiares de presos políticos reuniram-se nas proximidades do complexo e gritaram “liberdade”, segundo relatos da agência AFP. A ONG Foro Penal estimou que a Venezuela tem ao menos 711 presos, dezenas deles com relatos de permanência em instalações ligadas ao antigo centro de detenção.

O anúncio da anistia geral, que, segundo autoridades, abrange os 27 anos dos governos chavistas, e a queda de Nicolás Maduro marcaram uma nova fase política. Entre os desafios está a definição de cronogramas de soltura, o destino dos presos e a transformação física e simbólica do edifício.

A proposta de conversão do imóvel em um “centro esportivo, social, cultural e comercial”, conforme anunciado pela presidente interina, abre espaço para debates sobre justiça de transição, preservação documental e respeito às vítimas. Para que o passado não seja apagado, especialistas e ativistas lembram da importância de instituições que registrem e garantam acesso à verdade.

O futuro do complexo, localizado em uma colina central de Caracas, permanece em negociação, entre obras de requalificação, demandas por apuração de crimes e o clamor das famílias por reparação e memória.