EUA vendem petróleo venezuelano, controlam receitas e transferem dólares ao governo de Delcy Rodríguez, entenda mecanismo, fundos e riscos à transparência

EUA vendem petróleo venezuelano, vendas são feitas por Vitol e Trafigura, receitas ficam em fundo fiduciário no Catar e dólares chegam ao país via leilões do BCV

O governo dos Estados Unidos assumiu a comercialização do petróleo venezuelano e passou a gerir as receitas dessas vendas, com o objetivo declarado de beneficiar a população, segundo autoridades americanas.

As operações envolveram grandes traders, armazenamento em navios, vendas a refinarias na Costa do Golfo dos EUA e a criação de um mecanismo financeiro internacional para proteger os recursos.

Nas semanas seguintes à prisão de Nicolás Maduro, os volumes, preços e mecanismos de alocação geraram debates sobre eficácia e transparência, com impactos diretos na economia venezuelana, conforme informação divulgada pelo g1

Como funciona a venda do petróleo

O anúncio presidencial informou que entre 30 milhões e 50 milhões de barris de petróleo venezuelano seriam comercializados pelos EUA, e que a venda ocorreria a preços de mercado.

Empresas como Vitol e Trafigura foram contratadas para colocar o petróleo no mercado, segundo relatório citado pela imprensa, e parte do óleo foi ofertada a refinarias na Costa do Golfo por preços abaixo do Brent.

Relatos indicam que essas traders adquiriram o petróleo a um preço US$ 15 abaixo do custo do barril de petróleo Brent e o ofereceram por um preço entre US$ 8 e US$ 9 menor que o Brent, aproveitando a capacidade logística e financeira dessas empresas.

Para onde vai o dinheiro

O produto das vendas não ficou sob controle direto das autoridades venezuelanas tradicionais, e a primeira operação foi anunciada como tendo movimentado US$ 500 milhões (R$ 2,6 bilhões).

Segundo especialistas citados, os recursos foram depositados em uma conta do Banco Central da Venezuela no banco americano JP Morgan, e então transferidos para uma conta no Catar, que funciona como um fundo fiduciário entre os EUA e o governo de Delcy Rodríguez.

De lá, o dinheiro é distribuído a bancos venezuelanos para leilões de moeda, ou para cobrir necessidades do país, com a aprovação prévia dos Estados Unidos e do fundo fiduciário, segundo declaração de analistas ouvidos pela imprensa.

Como o BCV aloca os recursos e dados de distribuição

Os fundos chegam à economia venezuelana por meio de leilões conduzidos pelo Banco Central da Venezuela, aos quais empresas e pessoas físicas podem concorrer por dólar via bancos locais.

Em mensagem na rede social X, o economista Alejandro Grisanti relatou que até 30 de janeiro os fundos haviam sido alocados da seguinte forma, 80% para setores prioritários, como alimentos e medicamentos, 15% para outros setores produtivos e 5% para pessoas físicas.

O secretário de Estado americano, Marco Rubio, afirmou que o mecanismo é temporário e que o governo venezuelano apresenta um orçamento mensal para justificar o uso, acrescentando que há planos para uma auditoria posterior paga com recursos venezuelanos.

Críticas, transparência e impacto econômico

A principal crítica ao mecanismo é a falta de transparência, com dúvidas sobre quem aprova a distribuição e quais critérios são aplicados para garantir que os fundos cheguem a alimentos, remédios e serviços essenciais.

David L. Goldwyn alertou que, “Não sabemos claramente quem aprova a distribuição dos fundos, quais critérios são usados para garantir que o dinheiro seja realmente destinado à compra de alimentos, combustível ou ao pagamento de salários, e quanta supervisão ou prestação de contas existe para garantir que os fundos estejam sendo desembolsados como deveriam“.

Analistas também observam que, embora o mecanismo tenha aumentado a disponibilidade de moeda estrangeira e ajudado a estancar a desvalorização do bolívar, há incertezas sobre sua eficiência se for ampliado para volumes maiores.

Até o momento, o BCV leiloou cerca de US$ 800 milhões por meio do sistema bancário, com projeção de que o ritmo poderia chegar a US$ 1,4 bilhão no primeiro trimestre de 2026, e estimativas de que algo entre US$ 2,5 bilhões e US$ 3 bilhões poderão ser administrados pelo mecanismo, segundo autoridades citadas.

Enquanto órgãos dos EUA afirmam que o objetivo é garantir que as receitas do petróleo beneficiem o povo venezuelano, especialistas pedem regras claras, auditoria efetiva e maior visibilidade nas alocações para que o processo contribua de forma sustentável para a recuperação econômica.