EUA vendem petróleo venezuelano, controlam receitas e usam trust no Catar, Vitol e Trafigura colocam barris na Costa do Golfo enquanto BCV leiloa dólares

EUA vendem petróleo venezuelano, entre 30 milhões e 50 milhões de barris foram oferecidos ao mercado, receitas são geridas por um fundo fiduciário no Catar e parte dos dólares chega via leilões do BCV

Desde a prisão de Nicolás Maduro, os Estados Unidos passaram a intermediar a venda do petróleo produzido na Venezuela, contratar traders e reter o dinheiro das transações, numa operação que mistura objetivos humanitários, estratégicos e financeiros.

O mecanismo envolve grandes comercializadoras, contas em bancos internacionais e um fundo no Catar, criado para proteger os recursos de credores e controlar a destinação dos dólares dentro da economia venezuelana.

As medidas geram efeitos práticos na oferta de moeda estrangeira, ao mesmo tempo em que alimentam críticas sobre a transparência e a capacidade de ampliação do sistema, conforme informação divulgada pelo g1

Como as vendas foram montadas e quem participa

No dia 6 de janeiro, três dias após a captura de Maduro, o presidente dos EUA anunciou que o governo interino de Delcy Rodríguez entregaria entre 30 milhões e 50 milhões de barris de petróleo, em um volume equivalente a um ou dois meses da produção venezuelana nos níveis atuais, segundo comunicados oficiais.

O Departamento de Energia dos EUA informou que começou a negociar esse petróleo, e, em seguida, empresas de comércio de commodities foram contratadas para operacionalizar as vendas.

As comercializadoras envolvidas nas primeiras operações foram a Vitol e a Trafigura, escolhidas por sua capacidade de colocar o petróleo venezuelano rapidamente no mercado, e por lidarem com tipos de crude similares, de acordo com reportagens do mercado.

Fontes de imprensa indicaram que o petróleo foi oferecido a preços abaixo do Brent, em linhas com práticas históricas para o petróleo venezuelano, e que parte do óleo ficou inicialmente armazenada em navios até ser refinado na Costa do Golfo dos EUA.

Para onde vai o dinheiro, contas e o trust no Catar

A primeira venda foi anunciada em 14 de janeiro e avaliada em US$ 500 milhões, montante que não foi liberado diretamente ao governo venezuelano, conforme explicações públicas dos responsáveis norte-americanos.

Segundo informações levantadas por analistas, os recursos são depositados numa conta do Banco Central da Venezuela no JP Morgan, e depois transferidos para uma conta no Catar, que funciona como um fundo fiduciário, sob gestão que envolve autoridades americanas e o próprio trust.

Essa estrutura foi desenhada, segundo depoimentos, para evitar que credores venezuelanos, que poderiam reivindicar valores depositados em bancos americanos, bloqueiem o acesso aos recursos, e para acomodar a posição dos EUA quanto à legitimidade de autoridades venezuelanas.

O secretário de Estado Marco Rubio afirmou que o dinheiro está em uma conta pertencente à Venezuela, mas cujo uso é bloqueado pelas sanções americanas, e que a transferência ao Catar resolveu uma dificuldade legal, evitando que valores fossem imediatamente congelados por credores.

Como os dólares entram na economia venezuelana e critérios de uso

Os fundos administrados via trust estão sendo repassados ao mercado venezuelano por meio de leilões coordenados pelo Banco Central da Venezuela, aos quais empresas e indivíduos participam via quatro bancos locais autorizados.

Os interessados apresentam documentação, informam quanto precisam e a que preço estão dispostos a comprar, e o BCV decide as alocações, conforme fontes bancárias consultadas pela imprensa.

De acordo com um levantamento citado por analistas, até 30 de janeiro, as alocações seguiram o esquema de 80% para setores prioritários, como alimentos e medicamentos, 15% para outros setores produtivos e 5% para pessoas físicas, números que foram divulgados por especialistas que acompanham os leilões.

Marco Rubio também afirmou que o mecanismo inclui a exigência de um orçamento mensal apresentado pelas autoridades de Delcy Rodríguez, e que parte dos recursos será usada para comprar medicamentos e equipamentos diretamente dos EUA.

Impactos econômicos e os riscos por falta de transparência

Até o momento, o BCV leiloou aproximadamente US$ 800 milhões por meio do sistema bancário, ritmo que, se mantido, poderia resultar em cerca de US$ 1,4 bilhão no primeiro trimestre de 2026, segundo economistas consultados pela imprensa.

Analistas destacam efeitos positivos imediatos, como maior disponibilidade de moeda estrangeira, ancoragem cambial e redução da pressão inflacionária, melhorando condições para o setor privado operar e para a importação de bens essenciais.

No entanto, observadores e especialistas apontam problemas de transparência na alocação das receitas, em especial sobre quem aprova distribuições, quais critérios são usados e qual nível de auditoria existe para confirmar que recursos foram aplicados em alimentos, combustíveis e salários.

David L. Goldwyn avaliou que o processo impõe controles anticorrupção em relação ao passado e que ajudou a estancar a desvalorização do bolívar, mas também advertiu sobre a eficácia do mecanismo quando for ampliado para volumes maiores, e sobre a velocidade de decisão e implementação.

Outro desafio é manter uma governança clara do trust e criar auditorias independentes, tarefas que, segundo os responsáveis americanos, serão pagas com recursos venezuelanos e devem verificar o uso dos fundos.

O que esperar a seguir

Fontes oficiais mencionam que algo entre US$ 2,5 bilhões e US$ 3 bilhões podem ser administrados por esse mecanismo temporário, o que indica que o impacto na economia venezuelana pode crescer nas próximas semanas.

Especialistas alertam que a estabilidade obtida depende da continuidade da execução, de regras mais claras dos leilões, e de medidas para tornar a distribuição dos recursos mais transparente e passível de auditoria.

Além dos aspectos técnicos e econômicos, o arranjo político e diplomático entre Washington e o governo de Delcy Rodríguez, com visitas de alto nível e compromissos públicos, vai determinar em grande parte se o sistema se transforma em um caminho temporário de alívio ou em uma nova forma de gestão das receitas petrolíferas venezuelanas.