Europa contrata menos e acende alerta, ‘Grande Hesitação’ e avanço da IA põem em risco o futuro do trabalho na zona do euro, cortes e projeções explicadas

Mercado de trabalho da zona do euro desacelera para 0,6% em 2026, empresas anunciam cortes e trabalhadores evitam mudanças, aumentando dúvidas sobre o futuro do trabalho

O ritmo de contratações na Europa perdeu força e virou sinal de alerta sobre o futuro do trabalho, com impactos que variam por setor e país.

Trabalhadores estão mais relutantes em mudar de emprego, enquanto empresas em alguns países optam por reduzir quadros diante de custos e incertezas econômicas.

Os principais dados e previsões apontam uma desaceleração que alimenta receios sobre automação e reestruturações, conforme informação divulgada pelo g1.

O que mudou desde a “Grande Demissão” e por que surgiu a “Grande Hesitação”

Por um período após a pandemia, a chamada onda da “Grande Demissão” fortaleceu a posição dos trabalhadores, com aumento da demanda por talentos e busca por equilíbrio entre vida profissional e pessoal.

Agora, porém, o cenário se inverteu, com o mercado de trabalho esfriando por causa de pressões na indústria, desaceleração salarial e o receio sobre a substituição do trabalho humano pela inteligência artificial.

Segundo o Banco Central Europeu, o mercado de trabalho da zona do euro deve crescer mais lentamente este ano, a 0,6%, em comparação com 0,7% em 2025, segundo o Banco Central Europeu (BCE).

Além disso, cada diferença de 0,1 ponto percentual representa em torno de 163 mil novos empregos a menos criados, e, há apenas três anos, a zona do euro criou cerca de 2,76 milhões de novos empregos, enquanto crescia a uma taxa robusta de 1,7%.

Pressões por país e setores mais afetados

Na Alemanha, mais de uma em cada três empresas planeja cortar empregos este ano, de acordo com o think tank econômico IW, com sede em Colônia, o que amplia o sinal vermelho para a maior economia do bloco.

O declínio é mais visível na base industrial, com perdas marcantes nos setores automotivo, de máquinas, metalúrgico e têxtil, afetados por altos custos de energia, fraca demanda por exportações e concorrência global.

Ao mesmo tempo, nem todos os países seguem a mesma trajetória, com Espanha, Luxemburgo, Irlanda, Croácia, Portugal e Grécia projetando crescimento do emprego em 2026, segundo o Centro Europeu para o Desenvolvimento da Formação Profissional.

Impacto da inteligência artificial e previsões de emprego

A adoção da IA na Europa tem sido mais lenta que nos Estados Unidos e na China, mas ainda assim alimenta insegurança entre trabalhadores.

Um estudo da gigante de consultoria EY, publicado em julho, constatou que um quarto dos trabalhadores europeus teme que a IA possa colocar seus empregos em risco, enquanto 74% acreditam que as empresas precisarão de um quadro de funcionários menor como resultado da tecnologia.

O Instituto de Pesquisa de Emprego (IAB) projetou que 1,6 milhão de empregos somente na Alemanha poderiam ser remodelados ou perdidos para a IA até 2040, e a Agência Federal do Trabalho prevê que cargos altamente qualificados serão desproporcionalmente afetados, embora o setor de tecnologia possa criar cerca de 110 mil novos empregos.

Onde ainda há oportunidades e o que fazer para se preparar

Apesar do arrefecimento geral, ainda há forte demanda por profissionais em áreas específicas, como varejo, saúde, logística, engenharia e funções altamente especializadas.

Especialistas recomendam que trabalhadores adotem estratégias de atualização contínua e planejamento discreto, conhecido como career cushioning, para proteger carreiras diante de mudanças tecnológicas e ciclos econômicos.

Analistas ressaltam que a transformação pode redistribuir tarefas, e que muitos empregos poderão ser remodelados em vez de extintos, contudo, a transição exige políticas públicas e investimentos privados em requalificação profissional.