Europa contrata menos e acende alerta sobre o futuro do trabalho, IA e a ‘Grande Hesitação’, zona do euro registra desaceleração na criação de vagas
Mercado europeu freia contratações, com crescimento do emprego na zona do euro em 0,6%, medo da IA e cortes na indústria mudando o panorama do futuro do trabalho
Por um período após a pandemia muitos trabalhadores europeus encontraram vantagem na negociação por melhores condições, com trabalho remoto e licenças remuneradas.
Hoje, essa fase deu lugar ao que especialistas chamam de Grande Hesitação, com empregados menos dispostos a trocar de trabalho e empresas mais cautelosas ao contratar.
O quadro reúne desaceleração salarial, pressão no setor industrial e temores sobre a automação por inteligência artificial, fatores que redesenham o futuro do trabalho na Europa, conforme informação divulgada pelo G1, com base em reportagem da Deutsche Welle.
Por que a contratação caiu
O mercado de trabalho da zona do euro, composta por 21 países, deve crescer mais lentamente este ano, a 0,6%, em comparação com 0,7% em 2025, segundo o Banco Central Europeu (BCE). Essa desaceleração, embora pareça pequena, tem impacto real no emprego.
Na reportagem original, é destacado que cada diferença de 0,1 ponto percentual representa em torno de 163 mil novos empregos a menos criados. Além disso, há apenas três anos, a zona do euro criou cerca de 2,76 milhões de novos empregos, enquanto crescia a uma taxa robusta de 1,7%.
Fatores estruturais ajudam a explicar o recuo, entre eles a estabilização ou queda da migração líquida e a perda de dinamismo em indústrias tradicionais, que vinha sustentando muitas vagas.
Pressão na indústria e sinais em países-chave
A Alemanha destaca-se entre os países mais afetados, com a base industrial sendo a mais impactada nos últimos meses. Segundo a matéria, mais de uma em cada três empresas planeja cortar empregos este ano, de acordo com o think tank econômico IW, com sede em Colônia.
As consequências já aparecem em previsões de desemprego, o Banco da França espera que o desemprego no país aumente para 7,8%, e no Reino Unido dois terços dos economistas entrevistados pelo jornal The Times acreditam que o desemprego pode subir para até 5,5%, ante os atuais 5,1%.
Em outros países, como a Polônia, o desemprego atingiu 5,6% em novembro, em comparação com 5% um ano antes, e na prática há setores com queda de postos, especialmente no automotivo, máquinas, metalurgia e têxtil.
Quem ainda contrata e onde há demanda
Apesar do esfriamento, o panorama não é inteiramente negativo. Vários países continuam com criação de vagas, como Espanha, Luxemburgo, Irlanda, Croácia, Portugal e Grécia, conforme o Centro Europeu para o Desenvolvimento da Formação Profissional.
Além disso, há demanda persistente em áreas específicas, varejo, saúde, logística, engenharia e funções altamente especializadas mantêm carências. Especialistas apontam que a escassez se tornou mais setorial do que generalizada.
IA e o replanejamento do trabalho
A ameaça da inteligência artificial alimenta insegurança entre trabalhadores e empregadores, mesmo com adoção mais lenta na Europa do que nos EUA e na China.
Um estudo citado afirma que um quarto dos trabalhadores europeus teme que a IA possa colocar seus empregos em risco, enquanto 74% acreditam que as empresas precisarão de um quadro de funcionários menor como resultado da tecnologia.
Pesquisas institucionais também projetam grandes mudanças no mercado de trabalho, por exemplo, o Instituto de Pesquisa de Emprego (IAB), com sede em Nuremberg, projetou que 1,6 milhão de empregos somente na Alemanha poderiam ser remodelados ou perdidos para a IA até 2040. A Agência Federal do Trabalho prevê que os cargos altamente qualificados serão desproporcionalmente afetados, embora o setor de tecnologia possa criar cerca de 110 mil novos empregos.
Para especialistas citados na reportagem, a IA tende a transformar o trabalho, mais do que simplesmente eliminar ocupações inteiras. Isso pode estimular estratégias de proteção individual, o chamado career cushioning, e empurrar profissionais a buscar atualização.
O resultado provável é um mercado com menos vagas massivas, mais movimentação setorial e pressão por requalificação, elementos que vão moldar o futuro do trabalho na Europa nos próximos anos.