quinta-feira, junho 4, 2026

Feijão carioquinha, como uma mutação natural descoberta em 1963 e o trabalho do Instituto Agronômico e da Embrapa fizeram do grão o preferido de 60% dos brasileiros

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A trajetória do feijão carioquinha, da lavoura de Ibirarema às campanhas de multiplicação em 1969, mostra como ciência, adaptação e marketing mudaram a mesa do país

O feijão sempre foi base da dieta brasileira, presente desde os povos originários até a cozinha contemporânea, e uma mutação natural mudou para sempre esse cenário.

Em uma lavoura em Ibirarema, no interior de São Paulo, surgiram plantas com grãos listrados que chamaram atenção por serem mais produtivas e resistentes, e a partir daí começou a seleção que levaria ao sucesso do novo grão.

No trabalho coletivo entre produtores e pesquisadores, a cultivar foi oficialmente catalogada como carioca, I-38700, e acabou incorporada à mesa da população, conforme informação divulgada pela BBC News Brasil e pela Embrapa.

Da mutação espontânea à seleção e catalogação

O ponto de partida ocorreu em 1963, quando o chefe da Casa da Agricultura de Ibirarema, Waldimir Coronado Antunes, notou plantas cujo feijão tinha textura listrada em uma plantação do cultivar chumbinho.

Antunes fez uma seleção massal acreditando tratar-se de “uma mutação genética natural”, e três anos depois separou um saco de 30 quilos que foi enviado ao Instituto Agronômico, em Campinas, para análise.

O material foi, então, “oficialmente catalogado” sob a denominação carioca, e recebeu o número I-38700, com o engenheiro agrônomo Luiz D’Artagnan de Almeida responsável pelas avaliações, multiplicação e lançamento.

Produtividade, aceitação e estratégias de divulgação

Testes conduzidos pelos pesquisadores mostraram vantagens claras, e um estudo de 1971 apontou que o carioca produzia em média 1.670 quilos por hectare, enquanto bico-de-ouro e rosinha rendiam cerca de 1.280 quilos por hectare.

Apesar da produtividade, havia receio sobre a aceitação do consumidor, pois era estranho na época ver feijões com coloração rajada. Para superar isso, os pesquisadores divulgaram resultados e promoveram degustações.

O governo paulista distribuiu pacotinhos de meio quilo, entregou folhetos com receitas e montou barracas de degustação em supermercados, em parceria com a Associação dos Supermercados de São Paulo, para acelerar a adoção.

Expansão regional, resistência cultural e nomes

Nos anos 1970 e 1980, a cultivar se espalhou, com adoção rápida em São Paulo e difusão gradual em outras regiões, em parte pela capacidade de adaptação do grão a solos e climas diversos.

A Embrapa registra que hoje o grão é consumido por 60% dos brasileiros, embora o feijão-preto e outros tipos mantenham preferências regionais, como no Sul e em partes do Sudeste.

O nome, curiosamente, não tem relação com o Rio de Janeiro, ele “foi atribuído por sua similaridade com um porco caipira da região que possui a pelagem rajada, da raça carioca”, segundo relatos da época.

Impacto na alimentação e legado

Além de aumentar a produtividade da lavoura e a resistência a pragas, o novo feijão conquistou consumidores por formar um caldo mais claro e encorpado, e por cozinhar mais rápido, o que tornou o preparo do dia a dia mais prático.

Pesquisadores e agrônomos defenderam que a inovação promoveu “uma revolução no comércio de feijão no Brasil”, e para muitos foi um divisor de águas na modernização da cultura, segundo publicações do Instituto Agronômico e da Embrapa.

O engenheiro agrônomo Luiz D’Artagnan de Almeida ficou conhecido como o “pai do carioquinha” por sua contribuição para a multiplicação e divulgação da cultivar, que passou a integrar a alimentação de milhões de brasileiros.

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