Feijão carioquinha: como uma mutação natural e a pesquisa paulista transformaram o grão na escolha de 60% dos brasileiros, Embrapa e Instituto Agronômico

Da mutação numa lavoura de Ibirarema à campanha de multiplicação e divulgação, a história do feijão carioquinha que mudou a mesa do Brasil e dominou a produção nacional

O feijão carioquinha é hoje parte central da alimentação de grande parte dos brasileiros, e sua adoção combina curiosidade de campo, seleção prática e forte trabalho de pesquisa e divulgação.

A trajetória vai da descoberta casual de grãos manchados numa plantação paulista à multiplicação em escala e a campanhas de degustação que convenceram produtores e consumidores.

No texto a seguir, explicamos como a mutação natural, a atuação de agrônomos como Luiz D’Artagnan de Almeida e ações do Instituto Agronômico e do governo paulista tornaram o feijão carioquinha predominante na mesa do país, conforme informação divulgada pelo G1.

A descoberta e a seleção, origem do carioquinha

Em 1963, no município de Ibirarema, o chefe da Casa da Agricultura local, Waldimir Coronado Antunes, notou plantas com grãos listrados numa lavoura de feijão do cultivar chumbinho.

Antunes fez uma seleção massal das plantas mais vigorosas, que pareciam mais produtivas e menos suscetíveis a doenças, e três anos depois separou um saco de 30 quilos para análise no Instituto Agronômico, em Campinas.

Na sequência, o material foi catalogado sob a denominação carioca, com o número I-38700, e Luiz D’Artagnan de Almeida ficou responsável pelas avaliações e pela multiplicação da nova cultivar.

Pesquisa, rendimento e aceitação, por que o grão venceu

Os estudos do Instituto Agronômico e trabalhos de difusão enfatizaram vantagens claras, tanto produtivas quanto culinárias. Em pesquisa da época, o carioquinha mostrou rendimento superior ao das variedades tradicionais.

Em estudo publicado em 1971, foi constatado que o carioquinha rendia muito mais do que as outras variedades. Em média, produzia 1.670 quilos por hectare, enquanto bico-de-ouro e rosinha ficavam na casa dos 1.280 quilos.

Além da produtividade, especialistas destacam que o grão fazia um caldo mais claro e encorpado, cozinhava mais rápido e adaptava-se bem a diferentes solos e climas, fatores que facilitavam sua adoção pelos agricultores e pela população.

Divulgação, campanhas e a mudança de hábito

Havia, no entanto, um obstáculo cultural, pois consumidores estranhavam feijões com tegumento pintado ou rajado. Para vencer o preconceito, houve esforço de comunicação dirigido a produtores e donas de casa.

O Instituto Agronômico e o governo paulista distribuíram amostras e folhetos com receitas, e montaram barracas de degustação em pontos de venda, estratégias que ajudaram a popularizar o novo tipo de grão.

No campo, agentes como o agrônomo José Norival Augusti incentivaram produtores a experimentar o carioca, e municípios como Taquarituba tornaram-se pólos de produção nos anos 1970.

Impacto nacional, estatísticas e legado

Hoje ele é consumidor por 60% dos brasileiros, de acordo com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o que mostra a dimensão da mudança na preferência de consumo ao longo de décadas.

O sucesso do carioquinha reverteu uma tendência de queda de produtividade e ajudou a modernizar a cadeia voltada ao mercado interno, segundo pesquisadores do Instituto Agronômico.

Além do impacto econômico, o feijão é avaliado por especialistas como alimento central para a segurança nutricional, por seu teor de proteínas e fibras, e continua a oferecer variação regional junto a outros tipos como o feijão-preto e o mulatinho.

Nome, curiosidades e memória

O batismo como carioca não tem relação com o Rio de Janeiro. Segundo relatos da época, o nome do novo feijão acabou ficando carioca por ideia de um dos empregados de Waldimir Antunes, que percebeu semelhança entre a aparência dos grãos e a pelagem rajada de porcos locais da raça carioca.

Também foi desmentida a versão de que o nome faria alusão ao padrão das calçadas de Copacabana, tratada como lenda urbana por pesquisadores e historiadores da área.

O legado do carioquinha é uma combinação de acaso, ciência e comunicação, que transformou uma mutação natural em uma das marcas da alimentação brasileira.