Frigoríficos lucram com pênis bovino, vergalho vira petisco para cães e prato afrodisíaco na Ásia, Sul Beef e IMAC detalham produção, destinos e preços
Do abate à prateleira, o pênis bovino passa por higienização e desidratação, e segue como petisco para cães no mercado interno e como prato afrodisíaco na Ásia
O produto, conhecido também como vergalho, é aproveitado por frigoríficos de todo o Brasil e entrou em cadeias de consumo diferentes, do mercado pet ao segmento de alimentos que valorizam efeitos afrodisíacos.
Segundo especialistas do setor e frigoríficos, o processo de extração e conservação é simples, o produto é embalado unidade a unidade e perde peso durante a desidratação, o que agrega valor comercial.
As informações sobre produção, destinos e valores foram compiladas a partir de levantamento e entrevistas, conforme informação divulgada pelo g1.
Como é processado o pênis bovino
A extração do pênis bovino é feita logo após o abate, e, segundo Marcos de Paula, especialista em exportação da Sul Beef, o órgão é higienizado e tem suas membranas retiradas antes de ser embalado individualmente.
Após a retirada, o vergalho é higienizado e tem suas membranas retiradas, depois, cada peça é embalada individualmente, e para a venda o pênis é desidratado, com o peso caindo de cerca de 500 gramas para 200 gramas por unidade.
Na descrição do trabalho em frigoríficos, Marcos de Paula chega a brincar sobre o aproveitamento integral do animal, dizendo, “Do boi a gente só não aproveita o berro. E se bobear, o patrão manda fazer um CD com ele”, brinca de Paula.
Para onde vai a produção e quem compra
Segundo dados e relatos do setor, o destino principal do produto é o mercado asiático, com foco em países que valorizam o pênis bovino por supostos efeitos medicinais ou afrodisíacos, e também o mercado pet no Brasil e no exterior.
Ao todo, o Brasil faturou US$ 231.752 com a venda de miudezas comestíveis de bovinos frescas ou refrigeradas para o exterior, segundo a Agrostat, plataforma do Ministério da Agricultura que reúne dados de exportação.
Em Hong Kong, o valor da tonelada do produto pode chegar a US$ 6 mil, segundo o Imac, e, segundo De Paula, o valor é superior a outros miúdos vendidos para a China, como o omaso, que tem a sua tonelada comercializada por até US$ 5,5 mil e o bucho por até US$ 4 mil.
O frigorífico Sul Beef, do Mato Grosso, divulgou que mais de 90% de suas vendas de vergalho vão para o mercado asiático, o restante vai para o setor pet, com foco no Brasil, no Paraguai e nos Estados Unidos.
Por exemplo, no 3° trimestre de 2025, o Brasil abateu mais de 5 milhões de bovinos machos, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Portanto, produziu mais de 5 milhões de vergalhos.
O diretor de Projetos do Instituto Mato-grossense da Carne, Bruno de Jesus Andrade, observa que o produto já foi mais popular entre consumidores na China, e que o público envelheceu, com jovens consumindo menos pratos tradicionais, o que reduz a demanda local.
Preços, mercado interno e uso como petisco
No mercado interno, o preço médio do quilo chega a R$ 21, informa o Imac, e o produto pronto para consumo do pet varia conforme o peso, em pesquisa online foram encontrados vergalhos de R$ 12 até R$ 80.
O grande volume da produção brasileira, segundo Andrade, é destinado a petiscos para cachorros, com crescimento dos cuidados com pets nos últimos anos, e o vergalho é visto como um produto natural, rico em nutrientes para o animal.
Além de alimentos, outras partes do boi são aproveitadas em indústrias diversas, como crina das orelhas para pincéis, chifres para acessórios, e sangue e glândulas para a indústria farmacêutica, o que ilustra a lógica de aproveitamento integral das carcaças adotada por frigoríficos.
Contexto e impacto econômico
O comércio de pênis bovino ilustra um segmento de miúdos que tem valor agregado em mercados específicos, com preços por tonelada que podem superar outras partes comestíveis, e com rotas de exportação que combinam tradições culturais e demanda por produtos naturais para pets.
Para frigoríficos e exportadores, a venda do vergalho é mais um exemplo de como diferentes cortes e órgãos se traduzem em receitas, e como mudanças nos hábitos de consumo, tanto locais quanto internacionais, afetam a dinâmica de oferta e preço.