Futebol contra casamento infantil na Índia: como o esporte em Rajastão, o projeto Football for Freedom e as jogadoras Nisha e Munna estão mudando destinos

Em aldeias de Rajastão, o futebol contra casamento infantil na Índia tem dado às meninas autonomia, ajudado a recusar propostas arranjadas e aberto caminho para vagas no serviço público

Nisha tinha 14 anos quando, durante um treino de futebol com a irmã Munna, percebeu que adultos a observavam com intenção de propor casamento, ela se negou a cumprir rituais de cumprimento e resistiu à proposta.

As duas irmãs passaram a encontrar no esporte confiança para dizer não ao casamento infantil e a negociar autorização da família para viajar e vestir shorts em campo, atitudes incomuns na comunidade.

As histórias de Nisha e Munna ilustram como projetos locais usam o futebol para combater normas que empurram meninas para casamentos precoces, conforme informação divulgada pelo g1.

Esporte, roupa e liberdade pessoal

Munna, que descobriu o futebol por meio do Football for Freedom, liderou a aceitação do time feminino em Padampura, uma aldeia do Rajastão, ao pressionar por viagens a torneios e pelo uso de shorts em vez de túnicas longas.

Ela recorda que, no início, “Nos primeiros dois ou três dias, as mulheres da aldeia apontavam para nós e diziam: ‘Olhem aquelas meninas mostrando as pernas’“, e que a resposta foi ignorá-las e seguir jogando.

Nisha, que se destacou e passou a integrar a seleção do estado de Rajastão em 2024, também adotou mudanças visíveis, como cortar o cabelo curto, ações que descreve como formas de afirmar escolhas pessoais.

Como o projeto atua contra o casamento infantil

O programa Football for Freedom, ligado à organização de direitos das mulheres Mahila Jan Adhikar Samiti, tem treinado meninas em aldeias do Rajastão desde 2016, segundo a coordenadora Padma Joshi.

Joshi diz que “Quando começamos a conversar com os pais, nunca dissemos que estávamos introduzindo o futebol para impedir o casamento infantil“, e que “quando trabalhamos com as meninas e elas aprendem sobre os seus direitos e os efeitos nocivos do casamento infantil“, elas passam a conseguir se posicionar, acrescenta.

Além de empoderar as atletas, o projeto destaca um caminho prático para famílias, lembrando que estados indianos reservam vagas no serviço público para esportistas, o que pode significar emprego e independência financeira.

Números, lei e a realidade nas aldeias

Cerca de 25% das mulheres que vivem na Índia se casaram antes da idade legal, segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), e, apesar da queda nas últimas décadas, o problema persiste em áreas como o Rajastão.

Em 1992-93, cerca de 66% das mulheres na Índia estavam casadas antes de completar 18 anos, de acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde da Família.

Embora a lei proíba o casamento de meninas com menos de 18 anos e preveja punição, a aplicação é complexa. Adultos que realizam cerimônias e pais que autorizam ou negligenciam o casamento infantil, podem ser condenados a até dois anos de prisão e multa de 100 mil rúpias (cerca de R$ 5,760).

Na prática, segundo autoridades locais, aldeias inteiras costumam ocultar cerimônias e alterar datas para evitar investigação, o que dificulta condenações.

Ainda assim, registros oficiais mostram crescimento nas denúncias, “Foram registrados 1.050 casos em 2021, ante 395 em 2017, segundo o Ministério da Mulher e do Desenvolvimento Infantil“, mas esse total é uma fração das estimativas do Unicef, que apontam para cerca de 1,5 milhão de meninas com menos de 18 anos que se casam a cada ano na Índia.

Futuro, emprego e resistência familiar

Para muitas atletas como Nisha, continuar no esporte abre duas vias de liberdade, ela pode tentar a seleção nacional ou buscar uma vaga no serviço público reservada a atletas para garantir independência financeira.

Nisha diz: “Não há namorado. Eu vou jogar futebol, esse é o meu amor“, mostrando como o esporte se tornou prioridade e ferramenta de negociação com a família.

Munna, que ajuda a treinar novas jogadoras e cursa universidade, quer virar professora de educação física, função que estima garantir autonomia e servir de exemplo para outras meninas.

Mesmo com avanços, desafios culturais persistem. Mães e familiares ainda citam medo de “más influências” quando meninas saem de casa, e práticas silenciosas de casamento continuam sendo usadas para driblar a lei.

Projetos como o Football for Freedom combinam treinamento esportivo, informação sobre direitos e diálogo com pais, numa estratégia que mostra resultados locais, ao mesmo tempo em que expõe a necessidade de políticas públicas mais eficazes para proteger meninas e transformar normas sociais.