Futebol e casamento infantil, como o esporte está ajudando meninas em Rajastão a resistir a casamentos forçados e buscar independência financeira e social
Em aldeias de Rajastão, projeto usa o futebol para dar voz, autoestima e oportunidades às garotas, reduzindo riscos do casamento infantil e abrindo caminhos profissionais
Em Padampura, uma aldeia do estado de Rajastão, duas irmãs encontraram no futebol a força para dizer não a propostas de casamento forçado e a esperança de uma carreira que garanta independência.
O contato com o esporte mudou hábitos, roupas e atitudes, e virou argumento para convencer famílias sobre outros caminhos além do matrimônio precoce.
As histórias relatadas mostram como o futebol e casamento infantil se cruzam na prática, e como um projeto comunitário ajuda meninas a conhecer direitos e possibilidades, conforme informação divulgada pelo g1.
Um esporte que transforma escolhas
Munna introduziu o futebol em sua aldeia e passou a liderar a luta para que as meninas pudessem viajar a torneios e jogar usando shorts, em vez de túnicas longas e calças largas. A mudança de traje provocou reações, mas também confiança.
Como descreveu Munna, “Nos primeiros dois ou três dias, as mulheres da aldeia apontavam para nós e diziam: ‘Olhem aquelas meninas mostrando as pernas'”. Ela e a irmã Nisha seguiram praticando, sem se intimidar.
Em um treino, Nisha, então com 14 anos, percebeu que adultos da mesma família a fotografavam e descobriram que havia uma proposta de casamento. Ela contou que a mãe pediu que ela “tocasse os pés deles em sinal de respeito” e que ela respondeu, “Eu me recusei.”
Dados e leis, entre obstáculos e avanços
Na Índia, “a lei proíbe o casamento de meninas com menos de 18 anos e de meninos com menos de 21”, ainda que a prática persista em muitas regiões. “Cerca de 25% das mulheres que vivem na Índia se casaram antes da idade legal, segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).”
Historicamente houve queda: “Em 1992-93, cerca de 66% das mulheres na Índia estavam casadas antes de completar 18 anos, de acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde da Família, realizada pelo governo.”
As punições existem, “adultos que realizam as cerimônias, assim como pais ou responsáveis que autorizam o casamento infantil ou negligenciam sua interrupção, podem ser condenados a até dois anos de prisão e multa de 100 mil rúpias (cerca de R$ 5.760)”, mas a aplicação é difícil quando aldeias inteiras colaboram para ocultar as cerimônias.
O número de casos registrados cresce com a fiscalização, “Foram registrados 1.050 casos em 2021, ante 395 em 2017, segundo o Ministério da Mulher e do Desenvolvimento Infantil”, porém isso ainda é uma fração frente à escala do problema, já que há “cerca de 1,5 milhão de meninas com menos de 18 anos que se casam a cada ano na Índia, de acordo com a Unicef.”
Projetos locais e impacto real
O Football for Freedom, ligado à organização Mahila Jan Adhikar Samiti, atua em Rajastão para usar o esporte como ferramenta de proteção e empoderamento. Padma Joshi, da iniciativa, afirma que o projeto “treinou cerca de 800 meninas em 13 aldeias de Rajastão desde sua criação, em 2016.”
Joshi explica que, no diálogo com famílias, nunca se apresentou o objetivo como apenas impedir o casamento, “Quando começamos a conversar com os pais, nunca dissemos que estávamos introduzindo o futebol para impedir o casamento infantil”, e que, quando as meninas aprendem sobre direitos, “quando trabalhamos com as meninas e elas aprendem sobre os seus direitos e os efeitos nocivos do casamento infantil”, elas passam a conseguir se posicionar.
Além de autoestima, o futebol oferece caminhos concretos: atletas podem conseguir vagas reservadas em cargos públicos, portanto destaque em competições estaduais pode significar emprego e independência financeira.
Resistência familiar e caminhos para o futuro
Apesar das conquistas, resistências permanecem. A mãe das meninas, Laali, que foi noiva na infância, disse que teme “que as filhas fiquem expostas a ‘más influências'” e justificou a pressão social, declarando, “Eu me preocupo com as minhas filhas. Os moradores dizem que, se as meninas saem de casa, ficam expostas a más influências e podem fugir com rapazes, por isso temos de casá-las cedo.”
Autoridades locais também apontam dificuldades práticas, como Anjali Sharma, que afirma, “Se as famílias descobrem que sabemos [sobre um casamento infantil], eles mudam a data para antes ou depois da que esperávamos”, o que dificulta processos e condenações.
Para meninas como Nisha, hoje com 15 anos e jogando pelo estado de Rajastão, a meta é chegar à seleção nacional ou, caso não consiga, garantir um emprego público vinculado ao esporte. Ela chegou a responder ao pai que perguntava por namorados, “Não há namorado. Eu vou jogar futebol, esse é o meu amor.”
Munna, que treina outras jovens e cursa universidade, quer ser professora de educação física, função que lhe daria autonomia, e resume o propósito do trabalho com as meninas: “Consiga eu impedir o casamento delas ou não, quero ajudá-las a se tornar alguém na vida, a realizar seus sonhos.”