Em aldeias do Rajastão, o futebol constrói confiança, permite viagem a torneios e se tornou ferramenta concreta contra o casamento infantil, segundo relatos e dados
Numa vila de Padampura, duas irmãs descobriram no futebol um caminho para dizer não a propostas de casamento e para sonhar com carreira esportiva e independência.
O esporte as ajudou a enfrentar pressões familiares e sociais, com treinos, viagens a torneios e mudanças visíveis no comportamento e na autoestima.
Essas histórias e números sobre o papel do futebol na luta contra o casamento infantil estão descritos em reportagem sobre as jovens de Rajastão, conforme informação divulgada pelo g1
Como o futebol transformou a vida de Nisha e Munna
Munna apresentou o jogo à irmã mais nova, Nisha, e passou a liderar a iniciativa na sua aldeia, exigindo o direito de viajar a torneios e usar shorts em campo, no lugar de túnicas e calças largas.
Em um treino, a família que observava chegou a fotografar as meninas com a intenção de propor casamento, e a mãe pediu que Nisha tocasse os pés dos visitantes em sinal de respeito, conta a jovem, “Minha mãe me pediu que tocasse os pés deles em sinal de respeito”, traduzida para o português.
Nisha recusou, e deixou claro que era jovem demais para se casar, e que queria continuar no futebol, um anseio que a levou a integrar a seleção do estado de Rajastão em 2024.
Dados e contexto, a dimensão do problema
Embora a lei indiana proíba casamento de meninas com menos de 18 anos, o casamento infantil ainda é comum. Cerca de 25% das mulheres que vivem na Índia se casaram antes da idade legal, segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).
A tendência, no entanto, vem melhorando ao longo de décadas, o que fica claro na comparação histórica, em 1992-93, cerca de 66% das mulheres na Índia estavam casadas antes de completar 18 anos, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde da Família do governo.
O número de casos notificados cresce com fiscalização e conscientização, foram registrados 1.050 casos em 2021, ante 395 em 2017, segundo o Ministério da Mulher e do Desenvolvimento Infantil, mas isso representa uma fração do total estimado, cerca de 1,5 milhão de meninas com menos de 18 anos se casam a cada ano na Índia, de acordo com a Unicef.
Programas e respostas locais, o papel do Football for Freedom
O projeto Football for Freedom, ligado à organização Mahila Jan Adhikar Samiti, trouxe futebol a meninos e meninas em várias aldeias do estado, com foco em empoderamento e ensino de direitos.
Segundo Padma Joshi, do Football for Freedom, a iniciativa treinou cerca de 800 meninas em 13 aldeias de Rajastão desde sua criação, em 2016, e o esporte passou a ser também argumento prático para famílias, já que destaque nas competições pode abrir vagas de emprego.
Nos estados indianos, parte de cargos públicos é reservada para atletas, e Joshi lembra que o futebol pode ajudar meninas a conquistar estabilidade financeira, reduzindo a pressão por casamentos arranjados.
Limites e desafios, tradição, pobreza e aplicação da lei
A pobreza e normas tradicionais continuam a empurrar famílias para casamentos precoces, muitas vezes silenciosos, sem convites nem festas, para evitar consequências legais, conforme relato de moradora que confirma que casar a filha aos 16 anos é ilegal, e explica, “Fazemos tudo em silêncio, não imprimimos convite de casamento, não decoramos a casa nem montamos tenda”.
Legalmente, facilitar casamento infantil é crime, e adultos que realizam cerimônias, assim como pais que autorizam ou negligenciam, podem ser condenados a até dois anos de prisão e multa de 100 mil rúpias (cerca de R$ 5.760), mas a prática mostra dificuldades em obter condenações, por falta de testemunhas e pela organização comunitária em torno das cerimônias.
Autoridades apontam que aldeias mudam datas para driblar ações, e que a própria vítima raramente denuncia os pais, por receio das consequências, o que dificulta a punição e a interrupção das uniões.
O que o futuro reserva para as meninas que jogam futebol
Para Nisha, hoje com 15 anos e ainda na escola, o objetivo é chegar à seleção nacional, e se isso não ocorrer, garantir uma vaga no serviço público por meio de cotas para atletas, o que daria independência financeira.
Munna, que ajuda a treinar outras meninas e cursa universidade, sonha em ser professora de educação física, e afirma que quer orientar as novas gerações a não aceitarem o casamento infantil, “Consiga eu impedir o casamento delas ou não, quero ajudá-las a se tornar alguém na vida, a realizar seus sonhos”, em tradução livre.
O exemplo de Padampura mostra que o futebol pode ser mais que esporte, pode ser instrumento de mudança social, ao conferir visibilidade, autoestima e alternativas econômicas, mesmo diante de limites legais e culturais que ainda precisam ser enfrentados.