Gisèle Pelicot encontra amor e recomeço aos 73 anos após julgar marido por estupro de dezenas de mulheres, ela relata traição, cura e escolha corajosa

Após levar ao público o maior julgamento de estupro da França e acusar o ex-marido, Gisèle Pelicot, 73 anos, fala sobre recuperação emocional, decisões difíceis e um novo amor

Gisèle Pelicot descreve o momento em que "algo explodiu dentro de mim", ao descobrir a escala dos crimes cometidos por seu então marido, e diz que "foi como um tsunami".

Ela relembra a dor de contar aos filhos e a escolha extraordinária de abrir o julgamento ao público, mesmo podendo manter o anonimato, para dar voz a outras vítimas.

Nas memórias prestes a ser lançadas no Brasil, e em entrevista à BBC relatada na cobertura do caso, Pelicot fala também sobre o novo relacionamento encontrado em Île de Ré, e sobre a busca por respostas enquanto o ex-marido cumpre pena, conforme informação divulgada pelo g1.

Descoberta, choque e a "descida ao inferno"

Em 2011, Gisèle começou a ter perda de memória e problemas de saúde que inicialmente foram atribuídos a causas neurológicas e ginecológicas. Só mais tarde se confirmou que sedativos e drogas administrados por seu marido tinham sido usados para torná-la vulnerável a agressões repetidas.

Ela relata que, durante um interrogatório policial em Mazan, um agente lhe mostrou imagens de uma mulher desacordada, e que a polícia lhe disse que ela havia sido estuprada por dezenas de homens, com material catalogado em discos rígidos pelo marido.

Pelicot lembra que, ao ligar para os três filhos, vivenciou um dos momentos mais difíceis de sua vida, e que a reação deles, como o grito de Caroline, foi quase desumana.

Do anonimato à decisão de abrir o julgamento

Como vítima de estupro na França, ela poderia ter mantido o processo a portas fechadas, porém, enquanto caminhava na praia, decidiu que a audiência deveria ser pública para evitar que os acusados se beneficiassem do silêncio.

Pelicot recorda que teve apenas uma noite para decidir, e que "nunca me arrependi da minha decisão, nem por uma vez".

Ela afirma que escolheu abrir o julgamento também como uma mensagem de força, "Se eu consegui, todas as vítimas também podem", e que a presença da imprensa lhe deu "uma força inacreditável" durante as quatro meses de audiência em Avignon.

Julgamento, sentenças e o que ficou marcado

O caso ficou conhecido como o "julgamento da covardia" pela sensação de humilhação experimentada por Pelicot no tribunal, onde enfrentou insinuações sobre cumplicidade vindas de réus e advogados.

Ao final do processo de 2024, o tribunal considerou os acusados culpados, o ex-marido, Dominique Pelicot, recebeu a pena máxima de 20 anos de prisão, e os outros cerca de 50 homens foram condenados a penas entre 5 e 15 anos.

Pelicot lembra que, no tribunal, chegou a se ver em minoria, "51 homens e 40 advogados contra ela, sua pequena equipe legal e seus filhos", e que os vídeos apresentados confirmaram o que ela dizia sobre a falta de consentimento.

Impacto na família e buscas por respostas

As revelações abalaram profundamente a família, e Pelicot conta que foi um equívoco pensar que uma tragédia assim uniria todos imediatamente, "Levou muito tempo para nos reconstruirmos".

Sua filha Caroline sofreu com imagens encontradas no laptop do pai, e embora Caroline acredite ter sido drogada e estuprada, a falta de provas a impediu de ver o pai indiciado por esse crime.

Em 2022, a polícia informou a Pelicot que Dominique havia reconhecido uma tentativa de estupro, e que era investigado por um homicídio de 1991, suspeita que ele nega, e que ela ainda teme, pois seria "mais uma descida ao inferno".

Recomeço, amor e a escolha pelo caminho certo

Em 2023, enquanto buscava sossego na Île de Ré, Gisèle conheceu Jean-Loup, um viúvo com valores semelhantes, e os dois se apaixonaram, como ela descreve, "como adolescentes, quando nenhum de nós esperava".

Hoje, aos 73 anos, Pelicot diz que "a vida sempre reserva belas surpresas", e que o novo relacionamento trouxe cor à sua vida enquanto ela continua se curando.

Ela resiste à ideia de rejeitar totalmente os 50 anos que viveu com o ex-marido, porque, segundo ela, negar tudo seria negar a própria existência, e por isso escolheu crer que nem tudo foi mentira.

O que Pelicot ainda quer saber

Mesmo após o veredicto, ela deseja visitar o ex-marido na prisão para buscar respostas, em particular sobre o que teria acontecido com a filha do casal e sobre a investigação do assassinato de 1991.

Ela afirma que precisa olhar nos olhos dele e, embora não saiba se obterá respostas, sente que esse encontro é necessário para sua própria paz.

Para Gisèle Pelicot, a vida segue sendo uma escolha constante entre o caminho certo e o errado, e ela conclui que, em sua trajetória, optou por andar "na direção do bem".

Reportagem baseada em informações publicadas pelo g1, com trechos da entrevista divulgada pela BBC e trechos das memórias de Gisèle Pelicot.