Gisèle Pelicot encontra novo amor após julgamento por estupros do marido, reconstrói a vida aos 73 anos e lança memórias ‘Um Hino à Vida’
Depois do julgamento que expôs 50 agressores e a sentença de 20 anos ao ex-marido Dominique Pelicot, Gisèle Pelicot conta como recomeçou, encontrou amor e escreveu suas memórias
Gisèle Pelicot, agora com 73 anos, descreve o choque inicial, a reação dos filhos e a decisão de abandonar o anonimato para abrir o maior julgamento de estupros da França ao público.
Ela lembra o momento em que “algo explodiu dentro de mim”, e que a imagem que viu na delegacia foi “como um tsunami”, mudanças que a forçaram a confrontar cinco décadas de abusos.
Na entrevista, e nas memórias Um Hino à Vida, Pelicot fala de sofrimento, de reconciliação com os filhos e de um novo relacionamento, conforme informação divulgada pelo g1.
A descoberta e a “descida ao inferno”
Gisèle relata que soube do crime quando um policial lhe mostrou imagens de uma mulher desacordada, fotos tiradas por seu marido, e que ela “não me reconheci” ao ver aquelas cenas.
O policial explicou que ela havia sido repetidamente estuprada por dezenas de homens, e que o marido havia gravado, rotulado e catalogado os vídeos em um disco rígido, muitas vezes sem identificação dos agressores.
Ela conta que passou por longos interrogatórios, e que só após cinco horas conseguiu nomear o crime como “estupro”. A partir dali, iniciou aquilo que chamou de sua “descida ao inferno”.
O julgamento, a decisão de abrir o processo e o impacto público
Inicialmente, Gisèle pensou em manter o anonimato e um julgamento a portas fechadas, como acontece com vítimas na França, mas mudou de ideia ao perceber que isso garantiria o anonimato dos acusados.
Em uma semana de decisão, ela optou por abrir o julgamento ao público e à imprensa, afirmando que nunca se arrependeu, e que queria dar força a outras vítimas, dizendo, em suas palavras, “se eu consegui, todas as vítimas também podem”.
No tribunal de Avignon, Gisèle enfrentou quatro meses de audiência pública, que se tornou um marco nacional e internacional, com apoio de manifestantes e atenção da mídia, e até uma carta pessoal de admiração da rainha Camilla do Reino Unido.
As consequências para a família e a busca por respostas
As revelações abalaram toda a família. Gisèle lembra que telefonar para os três filhos foi a ação mais difícil da sua vida, e conta que ouviu sua filha Caroline gritar, “era quase desumano”.
Os filhos destruíram pertences da casa na tentativa de apagar a presença do pai, e as relações familiares sofreram com suspeitas, silêncio e afastamentos temporários. Gisèle diz que “levou muito tempo para nos reconstruirmos”.
A mãe de Gisèle acompanhou os acontecimentos, e Caroline permaneceu marcada, em parte porque fotos dela foram encontradas no laptop do pai, o que a deixou convencida de que também foi vítima, apesar da falta de provas que levassem a uma acusação formal contra Dominique.
Gisèle admite que ainda tem perguntas não respondidas, e declara a intenção de visitar o ex-marido na prisão para olhar nos olhos dele e buscar explicações, sobre Caroline e sobre uma investigação relacionada a um assassinato de 1991 em Paris, no qual ele nega envolvimento.
Sentenças, responsabilidades e a versão judicial
O julgamento resultou em condenações. O ex-marido, Dominique Pelicot, recebeu a sentença máxima de 20 anos de prisão, e outros 50 homens foram condenados a penas que variaram de cinco a 15 anos, de acordo com os relatos do processo.
Durante o julgamento, muitos réus tentaram minimizar os fatos ou alegaram que havia consentimento, mas os sete juízes rejeitaram os argumentos e consideraram todos os réus culpados.
Gisèle chamou o processo de “julgamento da covardia”, lembrando que os acusados agiam como se não aceitassem que ela não podia dar consentimento, apesar de as provas em vídeo confirmarem a violência.
Reconstrução pessoal, memórias e um novo amor
Depois da exposição pública e do processo, Gisèle mudou-se para a Île de Ré para ficar na sombra, mas acabou encontrando Jean-Loup em 2023, e diz que os dois se apaixonaram, como adolescentes, quando nenhum dos dois esperava.
Ela afirma que a vida “sempre reserva belas surpresas”, e que se sente em processo de cura. Gisèle resiste a apagar totalmente os 50 anos de casamento, porque, segundo ela, negar tudo significaria anular sua própria existência.
Nas memórias Um Hino à Vida, a autora volta a contar episódios da vida com Dominique, e reflete sobre a necessidade de escolher entre o caminho certo e o errado, lembrando que, em sua trajetória, procurou “andar na direção do bem”.
Gisèle segue querendo respostas, prometendo visitá-lo na prisão, e ao mesmo tempo reconstruindo laços com os filhos, buscando paz e reafirmando que está se curando.
A trajetória dela, do choque inicial até o julgamento público e a nova relação afetiva, mostra uma jornada complexa de dor, coragem e recuperação, com repercussão na França e fora do país, conforme informação divulgada pelo g1.