Gisèle Pelicot encontra novo amor após julgamento que expôs 50 agressores e a prisão do ex-marido, ela fala em cura, coragem e recomeço

Gisèle Pelicot, após revelar ser vítima de um esquema que envolveu dezenas de homens e a condenação do ex-marido, conta como retomou a vida e encontrou um novo amor

Gisèle Pelicot tem 73 anos e atravessou uma experiência que ela define como uma “descida ao inferno”, quando descobriu que seu marido havia filmado e organizado estupros praticados contra ela por dezenas de homens.

Depois de escolher abrir mão do direito ao anonimato e levar o caso a um julgamento público, ela enfrentou quatro meses de audiência, recebeu apoio de multidões e hoje diz estar em processo de cura, e em um novo relacionamento.

Nas memórias que serão publicadas no Brasil como “Um Hino à Vida”, ela relata traição, dúvidas, a reação dos filhos e a força para transformar o sofrimento em uma escolha de vida diferente, buscando respostas e reconstrução.

conforme informação divulgada pelo g1

O choque da descoberta e a decisão de não ficar em silêncio

O ponto de ruptura aconteceu quando a polícia mostrou à Gisèle imagens de uma mulher desacordada, cercada por homens, fotos e vídeos que seu então marido, Dominique Pelicot, havia arquivado.

Ela relata que, naquele momento, “algo explodiu dentro de mim”, “Foi como um tsunami”, palavras que traduzem o abalo ao perceber a escala do crime.

Após horas de interrogatório, foi capaz de nomear o que havia sofrido, dizendo que Dominique a havia estuprado e que havia facilitado que outros a estuprassem, e recebeu o conselho policial para não ficar sozinha.

Julgamento público, repercussão e condenações

Gisèle tomou uma decisão inesperada, ela abriu mão do anonimato e optou por um julgamento público, com ampla cobertura da imprensa, afirmando que não se arrependeu e que queria dar força a outras vítimas.

Durante o processo, que foi acompanhado por milhões na França e no exterior, os sete juízes consideraram todos os réus culpados, com Dominique Pelicot recebendo a pena máxima de 20 anos de prisão, e os outros 50 homens sentenciados a prisões que variaram de cinco a 15 anos.

Gisèle disse ainda, em uma fala que ganhou repercussão, “Se eu consegui, todas as vítimas também podem”, e afirmou ter carregado a vergonha por mais de quatro anos.

Impacto sobre a família e reconstrução das relações

A revelação teve efeitos profundos na família, sobretudo entre Gisèle e seus três filhos, que reagiram com choque e, em casos, com rupturas temporárias nas relações.

Ela conta que os filhos, ao chegarem para apoiá-la, jogaram fora objetos e fotos, tentando apagar a presença do pai, e que, com o tempo, têm buscado reconstruir laços, embora a filha Caroline tenha vivido um “tormento perpétuo” ao ver fotos que a envolviam entre os arquivos do pai.

Gisèle relata que não sentiu rancor em relação aos filhos, mas que o processo exigiu tempo individual para cura, e que hoje ela e Caroline trabalham para restaurar a confiança e a paz entre elas.

Perdão, respostas e um novo amor

Mesmo com a condenação, perguntas permanecem, incluindo investigações sobre outros crimes em que Dominique é suspeito, e Gisèle diz que pretende visitá-lo na prisão para confrontá-lo, “olho no olho”, na busca por respostas.

Ao mesmo tempo, ela resistiu à ideia de rejeitar totalmente a vida que teve, dizendo que precisava acreditar que os 50 anos vividos com o ex-marido “não foram apenas uma mentira”, para poder existir e seguir em frente.

Hoje, Gisèle vive na Île de Ré e conheceu Jean-Loup em 2023, um viúvo com valores próximos aos seus, e descreve o relacionamento como um reencontro com a alegria, afirmando, com gratidão, que “a vida sempre revela belas surpresas”.

Ela recebeu ainda mensagens de apoio público, inclusive uma carta pessoal da rainha Camilla, que a emocionou e a deixou honrada, e diz que as manifestações de solidariedade durante o julgamento deram a ela uma “força inacreditável”.

Gisèle conclui que optou por “andar na direção do bem” após tudo o que viveu, mantendo a compostura e a busca por cura, e reforça que sua escolha por tornar público o caso foi também uma forma de fortalecer outras vítimas.