Gisèle Pelicot, 73 anos, fala sobre traição, sofrimento familiar, decisão de abrir o julgamento e o reencontro com o amor, após condenações e sentenças em massa
Gisèle Pelicot diz que, quando viu as imagens que a polícia mostrou, “algo explodiu dentro de mim“, “foi como um tsunami“. Ela relembra a confissão, o medo e o momento em que precisou contar tudo aos filhos.
A exibição pública do processo transformou a vida da família e deu força a outras vítimas, segundo ela. A abertura do julgamento foi uma escolha que Pelicot afirma não ter se arrependido.
Hoje, após anos de reconstrução, ela conta que encontrou um companheiro e que “a vida sempre reserva belas surpresas” enquanto segue buscando respostas sobre o passado, conforme informação divulgada pelo g1.
O choque da descoberta e a “descida ao inferno”
Pelicot descreve o primeiro momento em que a polícia a levou a um local reservado e mostrou fotos de uma mulher desacordada, imagens que provavam que ela fora drogada e filmada. Naquele instante, tornou-se claro que havia sido repetidamente estuprada por dezenas de homens.
Ela recorda que, depois de cinco horas de interrogatório, foi capaz de usar a palavra “estupro“. A revelação foi devastadora para toda a família, e ligar para os três filhos foi, nas suas palavras, a ação mais difícil da vida.
A família tentou apagar a presença do pai, jogando fora móveis e álbuns de fotografias, enquanto buscava se proteger e entender a extensão dos crimes.
Do tribunal aberto à exposição pública
Pelicot teve direito, como vítima de estupro na França, a um julgamento a portas fechadas, com anonimato. Ainda assim, ela escolheu abrir o processo ao público e à imprensa para evitar uma nova punição às vítimas e para dar coragem a outras pessoas.
Durante os quatro meses de audiência em Avignon, ela enfrentou insinuações e ataques de defesa, e definiu o que viveu como o “julgamento da covardia“. Mesmo com a humilhação, a presença da mídia lhe deu, segundo ela, uma “força inacreditável“.
Os sete juízes do caso rejeitaram as defesas que tentavam deslegitimar o crime, e as penas foram aplicadas: o ex-marido, Dominique Pelicot, recebeu a sentença máxima de 20 anos, e outros homens tiveram penas que variaram de cinco a 15 anos.
Consequências para a família e buscas por respostas
As revelações abalaram relações, em especial entre Gisèle e a filha Caroline. Fotos encontradas no laptop do marido, e suspeitas de abuso também contra a filha, mantiveram tensões e levaram Caroline a sentir-se uma “vítima esquecida”.
Gisèle diz não ter guardado “ódio” ou “rancor”, mas sim um sentimento profundo de traição. Ela relata que a família precisou de muito tempo para se reconstruir, e que hoje tenta restaurar laços e buscar a cura.
Além das confissões de estupro, o ex-marido foi investigado, conforme informado, por uma tentativa de estupro em 1991 e por um possível envolvimento na morte de uma corretora de imóveis, acusações que ele nega. Pelicot diz que pretende visitá-lo na prisão para perguntar sobre possíveis crimes contra a filha e sobre o caso de assassinato.
Reconstrução, novo relacionamento e futuro
Nos anos seguintes, Gisèle mudou-se para a Île de Ré em busca de privacidade. Em 2023, ela conheceu Jean-Loup, viúvo com experiências de vida semelhantes, e, segundo ela, os dois se apaixonaram quando menos esperavam.
Hoje, Pelicot afirma que está se curando e que prefere não rejeitar inteiramente os 50 anos que viveu com o ex-marido, porque, se assim fosse, seria como se deixasse de existir. Ao mesmo tempo, ela mantém a busca por respostas sobre a motivação do ex-marido, mencionando que ele disse querer “subjugar uma mulher invencível”.
Para Gisèle, a escolha diária é caminhar pelo que considera o “caminho certo”, e sua história, marcada por dor e exposição pública, segue como um exemplo de luta e reconstrução, com apoio de ativistas, da imprensa e de pessoas que aplaudiram sua decisão de enfrentar o processo publicamente.