Gisèle Pelicot, novo amor e a reconstrução após o maior julgamento de estupro da França, ex-marido condenado a 20 anos e 50 réus punidos

Gisèle Pelicot relata a traição, a escolha de abrir o julgamento ao público, a cura após anos de abuso e o encontro com um novo companheiro

Gisèle Pelicot, hoje com 73 anos, relembra o momento em que descobriu que fora repetidamente drogada e estuprada, e a sensação inicial foi, nas suas palavras, “Foi como um tsunami.”

Ela conta como telefonou para os três filhos, descreve o impacto familiar, e explica a decisão de abrir um julgamento que poderia ter sido mantido em anonimato.

Na entrevista à BBC e nas memórias “Um Hino à Vida”, Pelicot fala de sofrimento, recuperação e de ter encontrado um novo amor, conforme informação divulgada pelo g1

Descoberta e choque

O caso começou a desmoronar quando a polícia mostrou à sra. Pelicot imagens de uma mulher desacordada, fotografada e filmada por seu marido, Dominique Pelicot. Ela conta que “não me reconheci” ao ver aquelas imagens, e que aquilo marcou o início de sua “descida ao inferno”.

Ao ser informada pelos agentes, ela soube que fora repetidamente estuprada por dezenas de homens, e que o marido havia gravado, rotulado e catalogado os vídeos em um disco rígido.

Em 2011, sintomas como perda de memória e problemas ginecológicos começaram a ser atribuídos a causas médicas, mas depois se mostrou que sedativos e relaxantes musculares administrados por seu marido eram parte do ciclo de abusos.

Consequências para a família e o julgamento

A revelação abalou profundamente os três filhos de Pelicot, que chegaram a destruir pertences da família num esforço para apagar a presença do pai, e provocou rupturas e reconciliações difíceis entre mãe e filha.

Durante o processo em Avignon, a sra. Pelicot enfrentou perguntas e insinuações, e descreveu o tribunal como um “julgamento da covardia”, ao ver réus e advogados negarem a gravidade dos atos.

Oito juízes rejeitaram as alegações de consentimento, e o ex-marido recebeu a sentença máxima de 20 anos de prisão, enquanto “os outros 50 foram detidos por períodos que variaram de cinco a 15 anos.”

Decisão de abrir o processo e repercussão pública

Inicialmente, Gisèle Pelicot dizia querer ficar nas sombras, como ocorre com vítimas de estupro na França, mas mudou de ideia ao perceber que um julgamento a portas fechadas penalizaria outras vítimas.

Ela afirmou, em carta e em entrevistas, que “Carreguei esta vergonha por mais de quatro anos” e que a exposição pública poderia dar força a outras mulheres para denunciar abusos semelhantes.

A presença de dezenas de câmeras no tribunal e a solidariedade de manifestantes, além de mensagens como a carta da rainha Camilla, trouxeram à vítima o que ela descreveu como “força inacreditável”.

Reconstrução, novo amor e pendências

Em 2023, ao se mudar para a Île de Ré, Gisèle Pelicot conheceu Jean-Loup, e os dois se tornaram companheiros. Sobre essa nova etapa, ela diz que “A vida sempre reserva belas surpresas” e que o encontro trouxe cor de volta ao seu cotidiano.

Apesar da recuperação, Pelicot mantém perguntas sem resposta sobre os motivos e os detalhes dos crimes do ex-marido. Ela pretende visitá-lo na prisão para, na presença dele, buscar explicações, inclusive sobre suspeitas de outro crime grave.

Ao reconstruir sua história, ela resiste a apagar os 50 anos vividos com Dominique, porque, segundo ela, aceitar que tudo foi uma mentira significaria negar sua própria existência.

Legado e reflexões

Gisèle Pelicot transformou sua experiência em uma mensagem de coragem, ao decidir tornar público um processo que podia ficar fechado. Sua trajetória inspirou apoio na França e fora dela, e abriu debate sobre anonimato, proteção às vítimas e responsabilidade coletiva.

Nas memórias “Um Hino à Vida”, e em entrevistas recentes, ela reafirma ter escolhido “andar na direção do bem” e seguir um caminho de cura, reconstrução familiar e busca por respostas.